O Homem de Aço

20130716-100020.jpg

Me criei vendo e revendo Superman e Superman 2 — aqueles com o Christopher Reeve. Eu era — e sou — maluco por esses filmes. Não canso de assistir. Mostrar para minhas filhas virou apenas um pretexto para reviver minhas emoções de criança. Hoje percebo o quanto essas histórias tiveram participação na formação de meu caráter. É uma contribuição que os super-heróis têm para a personalidade de uma pessoa. Acredito nisso.

Foi assim, com toda a expectativa possível, que fui assistir “O Homem de Aço” — o novo filme da DC Comics para o personagem. E fui em grande estilo — no IMAX.

Gostei do que vi no começo. Apesar da direção de arte e fotografia com look 300-aliens-gladiador (muito em voga, e que me aborrece justamente por conta disso), o roteiro, até então, estava bacana. Mantiveram tudo de bom que existia da história do nascimento de Kal-El do filme original, mas com um ar modernoso, claro. Bem esperto! Assim, resgatam o fã antigo sem parecer boboca para a nova geração. Gostei também dos flashbacks que contam momentos do herói enquanto criança e jovem. É certo que o estilo de Nolan, co-autor da história e produtor do filme, não admitiria um storytelling cronologicamente linear.

É bacana também quando pescam passagens dos filmes de 1978 e 1980 e dão novos desdobramentos, como usar um acidente com ônibus escolar em uma ponte, ou mostrar uma briga de bar entre o herói e um encrenqueiro. Foi como dizer “olha, a gente adora respeita os filmes originais, mas agora vamos fazer do nosso jeito”.

As coisas começam a degringolar quando iniciam as lutas. Em uma conta capciosa, devem ocupar cerca de 40% do tempo da película. O problema nem é a quantidade, mas a intensidade. É tudo “over demais” (redundante assim). Não só nas consequências que, por exemplo, o soco de Zod no Superman pode causar, fazendo-o ser lançado de forma a perfurar cerca de 15 prédios, mas pelo estilo frenético de movimento de câmera. Está certo que estava no IMAX, e que cheguei a ficar meio tonto com tamanha inquietude visual, mas foi exagerado. Tudo era assim. Às vezes penso que o estilo serve apenas para mascarar efeitos e reduzir tempo de renderização.

Ao contrário das antecessoras, esta versão tem pouco de humano. É uma ficção alienígena. Não há exploração de personalidades. Os personagens não conquistam, não cativam, não se firmam. Isso é meio recorrente nos filmes de ação atuais. Fico me perguntando como antigamente se conseguia, em menos tempo (sim, porque os filmes de hoje sempre têm mais de duas horas) contar mais coisas, explorar mais os personagens, criar envolvimento maior, sem esse ritmo intenso que se convencionou agora. Hoje, se corre mais — tanto nos diálogos quanto na ação — e se transmite muito menos. Vão falar que estou velho, mas o que fica quanto você sai do cinema? Um zunido na cabeça?

Se você é fã, como eu, da saga antiga, claro, vá ao cinema ver “Homem de Aço”! Se não é, vá também. Agora, por favor, não deixe de assistir os originais.

Once — Apenas Uma Vez

20120214-150903.jpg

Quando mostrei ao Renato o clipe que fiz para o Coelho (ver post anterior), logo lembrou e me indicou, com bastante sensibilidade, o maravilhoso filme irlandês “Once” (“Apenas Uma Vez”, no Brasil). No domingo, assisti e acredito que entendi o motivo da relação.

“Once” parece ser uma história de amor. E é. Mas de amor à música. Conta uns dias na vida de um músico que divide seu tempo entre preformances na rua e consertos de aspiradores de pó na oficina de seu pai. Até que conhece uma garota, apreciadora de sua arte, que tem um aspirador com defeito. Os dois começam a andar juntos e ela revela-se uma humilde pianista de mão cheia — com uma voz linda. Ele a coloca em seu projeto autoral e, a partir daí, o que parecia apenas um romance muda de rumo. A protagonista da história passa a ser a música. Isso é percebido diversas vezes, principalmente nos momentos em que a relação entre os músicos da banda é regida por algo maior. Todos são pobres e usam as ruas como ganha-pão, porém embarcam no projeto do personagem sem esperar nada em troca senão satisfação pessoal e amizade. Impossível quem é ou já fez parte desse mundo não se sentir tocado. Ao final do filme, essa questão é jogada na nossa cara duas vezes. Uma delas não posso contar, pois estragaria a surpresa do desfecho. A outra é nos créditos, quando, pela primeira vez me dei conta que o casal não tinha nomes. Está lá: “guy” e “girl”, ao lado do nome dos atores.

As composições do “cara” lembram muito Damien Rice e surpreende (ou não) encontrá-lo nos agradecimentos. As canções são, de fato, de autoria do protagonista, que tem carreira musical ao lado da “garota”, mas com nomes bem mais específicos: Glen Hansard e Markéta Irglová, também conhecidos como “The Swell Season“.

E a relação com o clipe “Tronco e Cetim”? Não está só nesses fatores afetivos com a música, mas na estética crua, nos movimentos de câmera, no ritmo da edição, na captação de áudio ao vivo. Só faltou mesmo as pitadas de romance, mas isso eu deixo pras nossas esposas discutirem. : )

Assista!

Deixa pra Lá

O que leva um diretor a fazer um remake de um filme recente que já foi muito bem executado? No caso de “Deixa Ela Entrar” (“Låt Den Rätte Komma In”, Suécia, 2008) e “Deixe-me Entrar” (Let Me In, UK/EUA , 2010), a única opção que cogito é a língua; é atingir um público maior. O original é sublime, perfeito, irrepreensível. Às vezes me pego no cinema pensando “poxa, aí eu faria diferente”, “por que fizeram assim?”. Talvez esse tipo de inquietação tenha afligido o diretor Matt Reeves (diretor do excelente Cloverfield). Porém, 80% das cenas são praticamente as mesmas – algumas nos mesmos ângulos, em locações parecidas, nos diálogos. Nos outros 20% ele mudou coisas que não acrescentaram em nada, pelo contrário; para quem viu o sueco, deixaram a desejar. Uma cena quase idêntica, mas bem pior na refilmagem é no ato final, quando se dá a “vingança” (sem spoils) – Tomas Alfredson foi muito mais feliz na escolha dos planos. O silêncio também é muito mais bem explorado pelo sueco. No sucessor, há trilhas e efeitos em demasia. Quanto às atrizes, temo em dizer que, apesar do excelente trabalho em Kick Ass, a atriz mirim Chloe Moretz não convence tanto como Lina Leandersson no papel  da vampirinha. Não estou dizendo que seja pior atriz, mas talvez seja uma questão de perfil.

Em época em que vampiros pegam sol e brilham como purpurina, é um alívio saber que não é preciso abrir mão dos preceitos básicos vampirescos para se fazer um filme contemporâneo, emocionante e cativante.
Na real, os dois são ótimos. Aconselho que se veja os dois. Mas o sueco antes. Nem que seja por respeito à ordem natural das coisas.

O Abacaxi Flambado e O Final de Lost

Sabe quando você está quase dormindo, indo e vindo, até que seu último pensamento, seu último pulso de consciência, é peça principal de uma complexa e estimulante teoria que só se revela estapafúrdia quando você desperta segundos depois? Exemplo: você está pensando na sua chave que ficou sobre a mesa; pega superficialmente no sono e imagina que, se essa chave estivesse sob a roda de um carro, mudaria de cor e seria perfeita para flambar um abacaxi; aí, você desperta e, apesar de sacar que tratava-se de um absurdo total, não consegue lembrar de quase nada; em seguida esquece de todos os detalhes e conexões pseudológicas e… Puf, se foi.

Talvez você tenha se identificado com essa minha sensação quase sonâmbula, talvez não. Mas foi ela que resgatei ao ver o último episódio de Lost. E foi por dois motivos. O primeiro é que essa pode ter sido uma das inspirações dos roteiristas ao criar a cruzada interior de cada personagem (ou só do Jack, enfim) e das trançadas malhas que sua imaginação o levou a tecer no pré-morte – como no meu pré-sono. O segundo motivo é que, assim como pelo meu sonolento devaneio, me senti totalmente ludibriado. A promessa dos produtores de que tudo seria explicado não foi cumprida. E, cá entre nós, foi uma solução preguiçosa e óbvia demais para resolver o emaranhado de situações absurdas que criaram. Isso sem falar que o grand finale não foi nada mais do que a teoria inicial, levantada por qualquer babaca antes mesmo de ver o primeiro capítulo, ao ler apenas a sinopse da série ou os releases lançados para a imprensa.

Não me arrependi de ver Lost por seis anos. O último capítulo (18) representa apenas cerca de 0,75% da série. Os outros 99,25% foram entretenimento da mais alta qualidade. Mas é que fica um retrogosto complicado de assimilar.

O Oscar Deste Ano Estava em Casa

– Amor, cê não vai trocar a lâmpada da varanda?
– Já vou.

– Amor, cê não vai arrumar o vazamento do lavabo?
– Eu chamei um faz-tudo que vai arrumar, junto com a lâmpada da varanda.

– Amor, cê não vai arrumar o portão da garagem?
– O faz-tudo não veio. Essa gente é foda…

Moral da história, quando Cameron conseguiu o faz-tudo, o conserto custou US$500 milhões, pois tinha acumulado defeitos pela casa toda. Bigelow arranjou outro marido e uma casa nova por apenas US$11 milhões.
E um Oscar de melhor direção.

– Amor, cê não vai trocar a lâmpada da varanda?
– Já vou.
– Amor, cê não vai arrumar o vazamento do lavabo?
– Eu chamei um faz-tudo que vai arrumar, junto com a lâmpada da varanda.
– Amor, cê não vai arrumar o portão da garagem?
– O faz-tudo não veio. Essa gente é foda…
Moral da história, quando Cameron conseguiu o faz-tudo, o conserto custou US$500 milhões, pois tinha acumulado defeitos pela casa toda. Bigelow arranjou outro marido e uma casa nova por apenas US$11 milhões.
E um Oscar de melhor direção.

Por que Avatar Merece Ser Visto

A vida é feita de opções. James Cameron soube escolher todas elas com maestria.

1) Por levar 12 anos para ser feito, Avatar não foi originalmente produzido para ser projetado com recurso 3D. Mas confrontado com a tecnologia presente na maioria dos blockbusters atuais, Cameron soube usar o recurso como ninguém, mesmo aos 45 do segundo tempo. Os efeitos não tiram o filme da tela como é comum se esperar. Ao contrário, jogam o espectador para dentro dele. Há, principalmente, profundidade de cena ao invés de elementos que pulam na sua cara e passeiam pela sala de projeção.

2) Usar traços dos rostos dos atores nos avatares que eles controlam e nos na’vies em geral, os tornam mais carismáticos e humanos, gerando identificação imediata com o público.

3) Escolher uma história medíocre e recorrente (apesar de muito bem contada) foi decisão acertada também. O foco do filme é a experiência; é a inclusão do espectador em um mundo de fantasia no qual ele nunca tinha estado com tamanha adesão sensorial. A história não poderia atrapalhar. Enquanto estamos apasbacados com o visual, abrimos a guarda e nos deixamos levar pela lenga-lenga lugar-comum do argumento. Avatar não é um filme que se vê; é um filme que se sente. Você está lá. É a “mentirinha” mais real a qual fui exposto. Cameron precisava levar isso para as massas. E conseguiu.

4) Claro que eu torci o nariz para o blá-blá-blá ambiental explorado pelo roteiro, mas foi outro acerto. Não posso subestimar o poder de influência global de um filme como este. Se é para ser veículo mundial de algum tipo de mensagem, que seja por uma boa causa, além de bastante pertinente.

Avatar é revolução, é uma nova escola. O cinema acaba de mudar, bruscamente. Avatar é um temporal repentino. Se ainda estiver passando em 3D, corra pra ver. Provavelmente, não haverá outra oportunidade.

Desvendei o Lost – Mais Uma Vez

Minhas últimas tentativas de desvendar  (parcialmente, é claro) o Lost neste blog foram um tanto quanto ousadas e profundas (metida à besta, pra ser mais claro). Mas agora, assistindo à quinta temporada, cheia de viagens no tempo e tal, é impossível deixar de pensar em um final do estilo criado pelo Planeta dos Macacos (original). Sabe o pé com 4 dedos da estátua gigante que apareceu no final da primeira  temporada (ou segunda, não lembro)? Pois quem tá acompanhando a quinta verá (ou já viu) que, em uma das voltas no tempo, a estátua aparece inteira, de costas. Me pareceu uma mulher. Acredito que nos últimos episódios da que for a última temporada, aparecerá o pé de uma das protagonistas (Kate, talvez) com apenas quatro dedos. E daí? E daí que talvez eles tenham voltado milhares de anos no tempo e a personagem de quatro dedos tenha aparecido para alguma civilização nativa da ilha e virado um tipo de deus, dando motivo a esculpirem a imagem em pedra.

Tá. Mas uma viagem.

Resgatando Posts Antigos – Kill Bill – Volume 1

Quando eu assisti o já clássico do Tarantino. Postado no Torcicolo, dia 1º/05/2004.

É por filmes como esse que eu tenho forças de levantar a minha bunda velha e gorda da cadeira para alugar um filme ou ir ao cinema. É por causa da possibilidade e da expectativa de ver algo diferente e incomum que eu gosto de cinema. Poucas vezes eu tenho vontade de ver algo convencional. Eu gosto de ser surpreendido. Tarantino é o rei. E olha que todo mundo disse que o filme era ótimo antes de eu ir, ou seja, achei que por eu esperar muito não gostaria tanto. Mas Tarantino é entretenimento, é sutileza, é porrada. Li que ele não escreve roteiros da forma convencional, mas como se fossem romances. Quem conseguiria, então, dirigir um de seus filmes melhor do que ele próprio? Podemos dizer que Tarantino faz isso como ninguém e que 90% das idéias devem aparecer na hora de rodar. Ouvi também que “Kill Bill – Volume 2” é melhor ainda. Estreiou nos EUA já.

Receita com ingredientes fáceis de achar mas difícil de fazer: misture “Os Irmãos Cara-de-Pau”, “Happy Tree Friends”, “Monty Phyton” e “Bruce Lee”. Coloque umas pitadas de clichês de filme de ação elevados à décima potência. Regue tudo com muito catchup, toneladas de catchup. Não esqueça de enriquecer os detalhes ornamentais inúteis à história, para contrastarem com a falta de sutileza do resto. Não esqueça do bom gosto tarantinesco pra completar. Pronto, você fez um grande filme. Serve muitas porções. Ah! Trilha sonora, como não poderia deixar de ser, nota 10.

The Happening

Eu vi o novo filme do Shyamalan. “The Happening” (ou “Final dos Tempos”, como se chama no Brasil). É um filme quase trash – o que acaba que o deixa mais trash que um filme trash, pois, hoje em dia, ser trash é ser cult, agora ser semitrash é ruim, pois fica no meio do caminho.

Porém, a história é boa. Os efeitos, ou truques de cena, parecem terem saído de um filme de Hitchcock. A inspiração no mestre não pára por aí, pois há diversos comportamentos de personagens, planos e movimentos de câmera que remetem ao diretor de “Os Pássaros” – e mais, remetem ao próprio filme de 63. Talvez essa relação esteja ainda mais evidente ao lembrar das árvores balançando e do vento soprando, recursos bastante presente no filme das aves. A referência é clara. Talvez este seja o maior mérito do filme, que é conveniente assimilar para não sair dizendo “aos quatro-ventos” que o filme é ruim. Talvez você seja ruim. : ) Talvez o filme não seja bom pra você. Talvez seja o pior de Shyamalan. Talvez, talvez…

No momento em que o personagem principal desvenda, ou acha que desvendou as circunstâncias e variáveis pelas quais o acontecimento se dá, eu visualizei um final. Não vou entrar em detalhes para não contar o filme para quem não viu: imaginei o casal tendo que se separar para não morrer, mas preferindo ficar junto e sucumbir. Repito meu argumento do post abaixo: “por que o Shyama não me perguntou?”. Eheheh. Como eu sempre digo: o fato é que o filme não é feito só do final e este me prendeu totalmente enquanto eu o via. Não fiquei pensando depois como nos melhor do diretor (Sinais, A Vila e Sexto Sentido), mas valeu enquanto durou.

Resgatando Posts Antigos – Shyamalan

Aproveitando o lançamento de “The Happening“, novo filme do diretor e roteirista (me nego a dizer “ator”) M. Night Shyamalan, aqui vai um post antigo sobre o assunto.

de Torcicolo, 29/12/2003

“M. Night Shyamalan comecou bem com ‘o sexto sentido’ e depois foi descendo ladeira abaixo. ‘sinais’ eh horrivel. vamos ver esse q vem ai…
Eduardo

Eduardo, eu pensei isso em seguida que assisti Sinais. Depois de muito tempo, comecei a matutar por que o filme não era bom. Por que ele não poupa o bom-senso e mostra a bicharada? Por que o final não é legal? Por que ele não surpreende como o Sexto Sentido?” Cheguei à conclusão, sem assistir de novo, que o filme era bom sim, aliás, muito bom. Por quê? Porque ele te prende o tempo todo – o cara é realmente o novo mestre do suspense, sem sombra de dúvidas. Lembra do cagaço quando o bichano aparece inteiro em “Passo Fundo”, a pé na plantação…? isso sem falar na tensão pela qual toda a situação é rodeada sem que vejamos ainda os aliens. É muito foda. Quando acabou o filme eu disse de brincadeira: “pô, por que o Shyama não me pediu uma opinião sobre o final do filme?”. O que eu faria? Eu deixaria os aliens só na imaginação. Sem aparecerem. Para que a fé seja colocada à prova e que a resposta ficasse com o espectador. Para o público saísse do cinema pensando: “será que eles estava ou não estavam lá? – um troço meio Orson Welles. Eu acho que seria mais legal mas, mesmo não sendo assim, é um grande filme de um grande diretor.