Apple Music: só eu estou enfrentando problemas?

Não pode ser que só eu estou enfrentando problemas com o Apple Music. (leia mais aqui)

Para tentar resolver, ontem, apaguei todas as músicas do celular, sincronizei com o iTunes e resolvi colocar de novo as faixas que eu queria pro iPhone.
Só que aí…

— Descobri que não é mais possível arrastar músicas para dentro do celular pelo iTunes. Tem que usar o app novo de músicas no telefone, procurar as que se deseja e marcar “disponibilizar off-line“. Uma burrice sem tamanho, porque isso é feito via internet e não via rede wi-fi ou cabo conectado ao computador. Ridículo! Consumi tempo e banda de internet para baixar centenas de faixas, que tinha no computador, sem necessidade.

— Hoje, saio de carro e coloco para rodar minha biblioteca. No meio das músicas que eu esperava ouvir, começam a tocar outras que eu tenho no iTunes mas não mandei irem para o celular. Como?

— O som do meu carro mostra mais de 7 mil músicas no dispositivo. Bom, este não é nem o número de músicas que tenho no iTunes (são mais de 17 mil) muito menos as que mandei ficarem off-line (400). Tudo bem, isso pode ser bug do meu som, que já é antiguinho e pode não estar conseguindo compreender direito o iPhone — porém, não acontecia antes do Apple Music.

— Não entendi ainda como ele está tocando essas faixas, pois realmente não há essas 7 mil músicas off-line; nem haveria espaço no dispositivo!

— A rede de dados está desabilitada para uso do Apple Music. Ou seja, elas não estão vindo da nuvem.

Isso só está acontecendo comigo? Ou só eu que me importo em não ouvir aquilo que realmente desejo?

É O SEGUINTE, APPLE MUSIC: EU NÃO QUERO QUE…

applenoranges[1]– NÃO QUERO QUE troque as capas dos meus álbuns; já coloquei as capas corretas! Não quero que substitua a capa que escolhi por uma da trilha sonora onde a música também está!
– NÃO QUERO QUE substitua a música de um disco raro ao vivo pela versão de estúdio do disco mais popular! Eu quero ouvir a versão específica!
– NÃO QUERO QUE, quando eu quiser ouvir a versão remasterizada que tenho em meu iTunes, você me toque a versão original, e nem vice-versa.
– NÃO QUERO QUE substitua o arquivo que eu ripei, com a qualidade que eu escolhi, com todas as minhas manias, pelo padrão que a Apple acha que é melhor para mim!
– NÃO QUERO QUE se confunda e, quando não achar a minha faixa, a substitua por outra totalmente nada a ver, de outro artista inclusive.
– E, definitivamente, NÃO QUERO QUE coloque músicas arbitrariamente em meu celular; faixas que eu não pedi para ficarem off line e nem as escutei via streaming.

Sim, isto é uma ameaça! Se em menos de três meses isso não se cumprir, eu não dou continuidade a minha assinatura.

Arte ou Mesmice?

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Com frequência, reclamo. Vejo outras pessoas reclamando também quando artistas cultuados, dos quais são fãs, lançam um trabalho medíocre; “não consegue mais ser como era antes”; “os primeiros discos é que eram bons!” Tenho certeza que isso atormenta também o mercado fonográfico, pois os lançamentos nem sempre correspondem às expectavas dos fãs. As bandas ficam tentando serem parecidas com o que foram mas sem serem iguais, serem inovadoras sem sair do lugar. Tudo para não fugir à marca que criaram e ao público que cativaram. Mas é aí que começam os problemas.

Quem , senão a arte, tem o papel de justamente quebrar as expectativas? No momento em que a expectativa tem forma, cor, timbre, postura e discurso pré-estabelecidos, a arte deixa de existir e assume o marketing tão somente. E o marketing burro, restrito, sem alcance. Pois se fosse inteligente apostaria em sua reinvenção.

O baterista do Motörhead falou sobre a dificuldade de compor atualmente: “Nós temos um enquadramento bem estreito para trabalhar e compor novas canções que soem como as antigas, mas que sejam novas. Isso é muito, muito difícil. Fica como se você já tivesse ouvido aquilo antes e você, provavelmente, já ouviu. Sabe quando você adiciona cor em uma imagem em preto e branco e ela ainda permanece preto e branca? É muito difícil.

A demanda criada precisa ser preenchida exatamente como exige? Claro que não. Um artista pode evoluir, ter novas vontades, desafios, necessidades de expressão. Os discos que mais cultuo são aqueles que quebraram fórmulas anteriores. A mesmice cansa. Se é para ficar na mesma, prefiro o original. Aliás, “fórmula” é um conceito que me desagrada profundamente.

Mas é necessário talento para se reinventar. Minha banda preferida tem uns 10 discos, gosto só de quatro. É a vida. A ideia é: conheça coisas novas e pare de cobrar que os artistas de sempre estejam à disposição para saciar seus desejos doentios por mesmice.

A propósito: o que você achou do novo disco do Pink Floyd?

Uma Experiência Sonora a um Preço Aceitável

marshall-headphones-xl[1]Não podem ser bons. ‘Marshall’ é amplificador de guitarra! Esses fones de ouvido devem ser fabricados por outra empresa que paga royalties pelo uso. Por outro lado, uma marca tão consagrada não permitiria fazerem merda com seu nome.” Fiquei matutando enquanto via muitas pessoas usarem fones de ouvido externos (daqueles grandes) no metrô. É tipo uma febre. Todas as cores, todos os modelos. Usavam dos mais convencionais — Philips, Sony etc. — passando pelos médios — Marshall, Beats Dr Dre — até os mais caros e profissionais — Sennheiser, AKG, Bose… Sempre achei exagero usar esses fones na rua, tanto pelo tamanho como pela pouca praticidade. Só que de tanto ver, fiquei influenciado a testar em uma loja de departamentos.

Lá estavam cerca de 20 modelos, dos mais baratos ao médios, enfileirados para audição. Bastava plugar seu mp3-player, degustar cada experiência e decidir qual comprar. Coloquei o disco que eu mais gosto e comecei pelo mais caro, um Beats Dr. Dre de €399. Trinta segundos foram suficientes para não me empolgar muito. Definitivamente, não era o disco que eu conhecia. Graves exagerados e inexistentes, frequências inventadas e outras reduzidas sem critério. Sim, o mais chinfroso de todos era uma fraude. Só design e ostentação. Fui para o segundo mais caro: outro Beats Dr. Dre, agora de €199. Mesma coisa. Também, não poderia ser melhor do que o mais caro. Só que o terceiro era o tal Marshall Major Black, que aguçava minha curiosidade no metrô. Custava €100. E adivinha. A música veio, como nunca! Todas as frequências perfeitamente balanceadas, sem excessos. Tudo no lugar onde deveria estar mas, ao mesmo tempo, surpreendendo. A música que conhecia há mais de 10 anos, veio em uma experiência nova, muito mais perfeita. Nada se perdeu. Nada foi estupidamente amplificado para causar o efeito artificial do grave absurdo. Veio um grave lindo, um médio robusto, um agudo sublime. Som puro. É claro que comprei.

Fiquei tão empolgado que, ao chegar no apartamento, escutei todos os álbuns que havia levado comigo, sedento por novas descobertas, ansioso para saber como eles soariam agora. Tinha a certeza de experimentar, pela primeira vez uma sonoridade muito mais próxima ao que o produtor e artista do disco desejaram que fosse escutada. O isolamento externo também era excelente. Fiz todos que estavam comigo escutarem também, tamanha a alegria da descoberta. Em minhas incursões de gravações musicais caseiras, ele se mostrou muito mais fiel do que um Sony que se diz “monitor de estúdio” que tenho. Os erros são mínimos quando estou mixando com ele.

Marshall-Monitor-Headphones-2[1]O único senão é o tamanho das almofadas. São pequenas e quadradas. Pegam minhas orelhas no meio. O que, em conjunto com as hastes dos óculos, causam certo desconforto. Mas nada que um reposicionamento e uma massageada nas cartilagens auriculares não resolvam. Mas a Marshall lançou um modelo novo (foto ao lado), chamado Monitor Black, com as conchas maiores, cobrindo toda a orelha. Devem resolver a questão. Estou louco para experimentar.

Estava há meses para fazer esse review. Foi agora, na correria. Isso aconteceu em outubro de 2012.

O Acidente da TAM — Coincidências

ft_ac_TAM_3054_48[1]Nunca contei isso.

Em 2007, a aeronave que fazia o voo 3054, da TAM, que ia de Porto Alegre para São Paulo (Congonhas) sofreu um acidente na aterrissagem. O fato impactou o Brasil inteiro e, principalmente, o povo gaúcho, pois grande parte dos passageiros era daqui. No dia seguinte, os jornais traziam em página dupla, as fotos das vítimas. Assim como à maioria das pessoas, as notícias do evento me aterrorizaram e tive a atenção voltada para os jornais e telejornais. Felizmente, não conhecia ninguém a bordo. (“Felizmente” é ruim de dizer, porque não houve felicidade alguma, já que tanta gente estava infeliz naquele momento e perdendo gente tão próxima.)

Eu havia feito uma música com uma letra antiga do Jefferson, baterista da minha banda, Água de Melissa. Porém, ele achara que a composição não combinava com a letra. Inspirado por aquelas 199 fotos 3×4 que estampavam os veículos de comunicação do país e pela ironia do destino de ter sua vida resumida a uma legenda de fotografia em página dupla de jornal, resolvi escrever uns versos e substituir a letra anterior. Os fiz em primeira pessoa, sob a ótica de um passageiro. Decidi que a personagem seria uma mulher. Senti a necessidade de dar um nome a ela. Pensei em um qualquer, aleatório, que coubesse na métrica e rimasse com algum número que seria sua idade. Inventei “Maria Inês”, para rimar com “23”. Juro que não havia visto a lista de passageiros.

Há cerca de três anos, algum parafuso da minha cabeça soltou, ou prendeu, não sei. Lembrei da irresponsabilidade em ter escolhido um nome qualquer e não ter nunca verificado se realmente não havia passageiro homônimo. Fui para a internet e, pasmo, encontrei “Inês Maria Kleinowski”. Pesquisei mais a fundo, incrédulo, para encontrar a idade. Só faltava ser 23. Não era. Tratava-se de uma senhora de 49 anos. Fui atrás de parentes, pois pensei que a coincidência poderia ter algum valor para a família. Mandei e-mails para alguns com sobrenome igual, mais nunca obtive resposta.

A música se chama “Não Sou Eu (200 Fotos)” e pode ser ouvida no site da minha banda Água de Melissa ou aqui.

Fica aí, registrada, a curiosidade, seis anos depois.

Abaixo, a letra da música.

Não Sou Eu (200 Fotos)
(Cuca)

Esta da foto não sou eu
Nem sou o que me descreveu
Quem foi que veio me entrevistar
pra eu contar?

Eu não sou tinta de jornal
Em fonte bold, arial:
“Maria Inês, Porto Alegre, estudante, 23”

Só uma legenda
pra explicar minha vida inteira, vai caber?
Quem são as 200 fotos na página central?

Cadê o meu riso engraçado?
E meus poemas decorados?
O jeito que amarro o meu sapato?
Eu sou assim.

O Show de Roberto Carlos em Pelotas

20130414-232350.jpgRoberto Carlos esteve neste sábado, 13, com seu show em Pelotas. A princípio, o fato de ter passado parte da minha infância escutando três de seus discos não era suficiente para me fazer querer ir ao show. Admiro apenas suas composições antigas e acho que o formato espetáculo, que apresenta nas últimas décadas, um tanto quanto pasteurizado, com seus pout-porris dez-em-um-essa-nao-pode-faltar. Porém, ganhei ingressos de cortesia da RBS TV, que estava promovendo o evento. Foi o que fez eu mudar de ideia rapidinho.

Apesar de uma pequena confusão na entrada — nosso portão estava indicado de forma errada no ingresso — todo restante da organização foi impecável. A estrutura é como a de um grande festival internacional, senão melhor — pelo menos mais eficiente e profissional. Afinal, Roberto Carlos vem realizando turnês desse tipo há bastante tempo, construindo um know-how inevejável em sua equipe. A meia hora de atraso em sua pontualidade habitual, creio que foi ocasionada pelas filas que ainda havia no estádio do Esporte Clube Pelotas.

A primeira impressão ao iniciar o show foi o volume — muito abaixo do comum, não só em concertos de rock, mas em qualquer outro, mesmo em teatros. Tecnicamente, volume não precisa ser alto para ser bom e, depois de duas ou três canções, o operador de áudio provou isso. O segredo de toda boa mixagem, seja ao vivo ou em gravações, é colocar cada instrumento em sua frequência correta. Assim, um não se sobrepõe ao outro, permitindo que tudo seja escutado com perfeição. Quanto maior a quantidade de instrumentos, mais complicada é esta tarefa e mais restrita fica a faixa de frequência de cada um. Porém, no show de ontem, o espaço do espectro em que a voz de Roberto Carlos estava, parecia ter um buraco de segurança abismal só pra ela. Imagine que você tem 40 carros para estacionar em 40 vagas, mas ao invés de colocar um em cada uma, coloca 39 socados em 30 vagas para que um deles (a voz de Roberto) fique com dez vagas só pra ele. Estava assim. Acho que isso prejudicou bastante a percepção de muitas nuanças de alguns instrumentos, porém, a voz do protagonista (que é o que 99,9% das pessoas foi pra ouvir) estava perfeitamente inteligível. Ainda sobre o som baixo, isso também permitiu que, no silêncio reverencial que se instaurava, pudesse-se ouvir perfeitamente, em todo estádio, qualquer expressão mais acalorada de algum fã. Diversos foram os momentos em que todo o estádio riu de alguma declaração de amor vinda da plateia. Em alguns momentos, chegava a ser chato.

Deixando a parte técnica de lado, vamos as percepções emocionais. Entendi por que, nos especiais da Globo, o público composto de atores, diretores e convidados, fica sempre com aquela cara de babaca, como se estivessem hipnotizados. É porque, sim, todo mundo se comporta dessa forma na presença desse ícone da música brasileira. Eu estava assim. Roberto Carlos é mítico, carismático, simbólico, histórico e algumas outras proparoxítonas que não me ocorrem agora. Estar em sua presença é enxergar perfeitamente o GPS que a música popular nacional usou, em sua fase áurea, para percorrer seu caminho. Sem falar na importância emocional que suas composições nos trazem.

Alguns recalcados falam que Roberto Carlos não tem uma grande voz. Se falarem em potência vocal, certamente estão certos. Mas o Rei canta muito bem, não desafina nunca (nem chega perto disso) e sabe, como quase ninguém, o que tem que fazer para suas letras e melodias rasgarem nossos sentidos como uma faca. Pra mim, isso é ser um grande cantor.

Os pontos altos do show foram duas canções menos óbvias (houve poucas, por sinal): “Desabafo” e “Cama e Mesa”. Os momentos em que ele conversou e contou histórias de sua vida, também fizeram os presentes esboçarem sorrisos de satisfação. Senti falta de “Curvas da Estrada de Santos” e “Todos Estão Surdos”, mas esta ele não ia tocar mesmo.

Acabou com a tradicional distribuição de rosas ao som de “Jesus Cristo”. O fato estranho nessa parte é que as primeiras (mais ou menos) dez flores, Roberto beija e deixa sobre o piano. As seguintes, só leva à boca, sem fazer nem biquinho, e atira às moças e senhoras que, a essa hora, já estão se esbofeteando em frente ao palco.

Fiquei feliz em ter ido. Eu precisa desta experiência. Foi um grande show, com grandes músicos e produção, de um grande nome da música popular brasileira.

Eu, De Fora de Mim

“Escuta a música que fiz com a tua letra. O que tu acha? Posso colocar no disco?”

Eu não lembrava de ter mandado aquilo para o Felipe (Mello, da Doidivanas). Muito menos de ter escrito. Fiquei confuso demais. Ainda mais se tratando de um dos compositores e cantores mais talentosos com quem tive o prazer de tocar e conviver. Forcei a memória por todos os lados. Enfiei um barbante por um ouvido e puxei pelo outro, pra ver se extraia alguma pista dos meus neurônios. Nada. Nenhum verso relampejava sinapse qualquer. Eu precisava ter uma única prova sequer que aquilo era meu.

“Felipe, tem certeza que esta letra é minha?”

Ele garantia. Pelo menos que havia enviado pra ele. Mas eu estava incrédulo. Afinal, todo mundo pode se enganar, trocar as bolas, fazer uma “felipada”. Tá certo, meu estilo meio fajuto de compor estava ali — palavras óbvias, rimas fáceis, toantes (ou assonânticas), construção reta. Mas isso não bastava. E o pior: “o que eu quis dizer com ela?”. Foi quando, um sopro de sanidade — uma microdescarga elétrica, das mesmas que mantêm um trauma vivo na cabeça — me fez lembrar de um caderno velho onde anotava coisas, versos, ideias em geral. Era um bem surrado da faculdade; reaproveitado. Bingo! Estava lá, com minha caligrafia. Ufa! Alívio! Afinal, o meu nome constaria nos créditos do CD e, definitivamente, não queria cometer injustiça com alguém.

Eu ainda precisava batizar a canção, mas não tinha entendido o contexto e a intenção que dei na época. Tranquilo, me pus a interpretar as figuras de linguagem dali. Pela primeira vez na vida, consegui ver algo meu de fora, isento, com os olhos de um terceiro. E gostei. Fiquei feliz. Estava direitinho, apesar de algumas liberdades poéticas que talvez não me permitisse hoje.

Esse olhar externo foi o que me fez escrever este post. Eu sempre quis ver um show da minha banda, mas estando sobre o palco tocando não era possível. Todo mundo que trabalha com criatividade, e com arte principalmente, carece de opinião. A melhor opinião, sem dúvida, seria a sua mesmo, se fosse possível se ausentar de si para um olhar imparcial.

“Dois Polos” foi como a chamei. Está lá, abrindo o disco “O Som da Paisagem” do trabalho solo de Felipe Mello, chamado “Aeroflip“, o qual também tive o privilégio de fazer o projeto gráfico. E, claro, o disco é ótimo, com destaque para “A Casa das Canções”, “Um Blues Depois de Mim” e “Quando o Coração É Um Violão Desafinado”.

Você pode comprar o CD pelo Facebook, solicitando ao Felipe aqui.

Como o Rock-gaúcho Colaborou com a Desconstrução de Um Estado

(este texto deve ser lido com bom-humor, alguma ironia, desprendimento e felicidade no coração)

O Rio Grande do Sul começou a degringolar quando o rock-gaúcho ensaiou alçar voos nacionais.

Os gaúchos costumavam ser um povo referente para o resto do País. Nossos índices sociais e econômicos, por muito tempo, estiveram no topo das estatísticas. Mas essa imagem veio se perdendo. Não só a imagem, como os fatos. Já falei sobre meu ódio por esse “orgulho gaúcho” imbecil aqui. Eu acredito piamente que, se não uma causa, uma dos primeiros sintomas da decadência foi o rock-gaúcho.

Note que usei “rock-gaúcho”, com hífen, pois não trata-se de preconceito geográfico. Não estou usando o “gaúcho” como adjetivo, mas falando daquele rock feito aqui nos anos 80, que começou a ser reconhecido como tal no resto do país. Ou seja, não estou falando de toda a produção de rock dessa década. Me refiro àquela “marrenta”, lotada de um sotaque forçado — de um magrinhês “que me fez te pegar nojo”. Para não começar a me repetir, já falei sobre isso. Leia aqui.

Vamos dar nome aos bois: me refiro a TNT, Cascavelletes, Rosa Tatuada e alguns outros contemporâneos, coniventes e cúmplices; me refiro ao rock “oh, yeeaaahh ééééé!”. Não falo do estilo musical em si e nem das composições, mas a esse jeito de cantar pretensamente rebelde-sem-causa. Outro dia, no Canal Viva — onde reprisam programas antigos da Globo — estava o TNT no Globo de Ouro, fazendo playback (olha a situação aqui) . Lembro que até Xuxa eles frequentaram poucas vezes. Acho até que chegaram a estar na trilha sonora de alguma novela do canal. Nesse momento, num ponto em que qualquer outro estilo musical teria se criado e procriado para todo Brasil, toda uma geração, duas, três, talvez quatro, de bandas e artistas gaúchos foram lançadas ao ralo. Quem, em sã consciência, no centro do país, ou em algum recanto por aí, haveria de comprar uma balaca tão insuportável quanto aquela? Ninguém estava preparado para aquilo. Era uma afronta, um desconforto, uma nojeira a quem via de fora. Muitas bandeiras espontâneas, sem representação na mídia, quando levantadas, são capazes de erguer súditos seguidores e se tornar uma força. Essa foi o oposto; antipropaganda.

“Sob Um Céu de Blues”, dos Cascavelletes, é uma baladinha sincera, meia-boca como tantas outras, não pior do que tantas populares por aí. Agora, escutem o jeito que o cara canta aqui (é o meu ponto). Uma tentativa de Mick Jagger extrapolada ao infinito.

Coitado do Nei Lisboa, e muitos outros, que foram jogados no mesmo balaio e nunca conseguiram se criar nacionalmente apesar de extremamente talentosos. Sei que vou sofrer apedrejamento por pensar e escrever este artigo. De gaúchos, claro. E o pior é que até eu chego a me acostumar e a ter certa nostalgia, afinal, era o que tocava quando eu era criança e adolescente. Lampejos de insanidade chegam a se apossar de minha mente em alguns momentos…

P.s.: Cachorro Grande tem um pouco disso tudo, mas eu acho BEM MAIS INTERESSANTE, porque já são uma releitura daquilo tudo e mais um pouco.

Clarice Falcão Vai Grudar Nos Seus Ouvidos

Há algum tempo, a pernambucana Clarice Falcão é hit na Internet com suas composições em performances caseiras solitárias. A fórmula é certeira: uma menina com voz doce e cara de tímida, cantando melodias simples, sobre harmonias simples, com letras simples, contudo inspiradas e inusitadas. Mas, apesar de seus 22, nem tão menina assim. Clarice já tem significativa experiência. É atriz, roteirista; filha do meio. Seus pais são roteiristas de cinema, Adriana e João Falcão, que trazem na bagagem, individualmente, trabalhos para “O Auto da Compadecida”, “Se Eu Fosse Você” e “O Coronel e o Lobisomem”. É também namorada do ator e humorista Gregório Duviver. Mas não é todo esse relacionamento que faz de Clarice uma grande expressão artística. Se não tivesse talento pra dar e vender, não teria vencido o concurso internacional Project Direct, com o curta “Laços” (de 2008), escrito por sua mãe, no qual foi atriz, e seu vídeo de “Uma Canção Sobre o Amor, Ah o Amor…” não teria mais de 2,5 milhões de views.

Clarice também já fez ponta na novela “A Favorita”, sua estreia na TV.

Mas o que interesse mesmo pra mim, que está martelando na minha cabeça, que fez minha filha implorar pra que eu gravasse pra ela um CD, são as composições de Clarice. Trata-se daquele tipo que nos faz chorar, rir à beça e nos encantarmos com tamanha inspiração. Há uma possibilidade — confabulo sorrindo — que os quase 4 milhões de views no Youtube sejam de apenas cerca de 4 mil pessoas que assistiram umas mil vezes cada música, porque o troço é viciante.

A moça não tem CD, mas diz estar trabalhando em um. Fucei e encontrei pra baixar uma compilação não-oficial que não sei quem fez. Acho que Clarice não vai ficar brava se eu compartilhar. Baixe aqui.

Se quiser ver seus vídeos, posto alguns aqui, mas tem mais no seu canal do Youtube. Vale a pena dar uma buscada também pelo seu nome, pois há dezenas ou centenas de covers caseiros de seus hits.

E para não ficar sem mostrar o curta “Laços”, aqui está.

Clarice faz bem aos ouvidos do mundo.

Rachou

Contabilização da energia.

Sozinho em uma pizzaria, viajando a trabalho, compus a letra.
Anotei no celular.
Tentei musicar algumas vezes. Ficou ruim. Guardei.
Mandei para um amigo. Ele não fez.
Meses depois, publiquei no blog.
Meses depois, descobri o concurso do Leoni.
Mandei a notícia para uma amigo.
Li o regulamento algumas vezes.
Não gostei das regras do Concurso.
Achei-as falhas e incompletas.
Resolvi participar mesmo assim.
Baixei a música.
Ouvi umas 3 vezes.
Pensei em compor algo novo.
Questinei Leoni sobre o tipo de letra desejada.
Ele respondeu que só precisava ser boa.
Lembrei da letra já feita.
Resgatei.
Combinou.
Mudei versos de lugares.
Cantei.
Ajustei métrica.
Cantei.
Cortei dois versos.
Cantei.
Cantei.
Cantei.
Conectei cabos, microfone e arrumei a câmera.
Coloquei a letra no monitor.
Apaguei a luz.
Disparei a câmera, o player mp3 e o gravador do micro.
Errei.
Errei.
Errei.
Errei.
Errei.
Acertei.
Mixei o áudio.
Editei o vídeo.
Subi pro Youtube.
Inscrevi no site.
Aguardei instruções.
Escutei concorrentes.
Troquei ideia com amigos.
Questionei as regras do Concurso.
Mandei sugestões para um próximo.
Assisti 6 paredões.
Fui emparedado.
Postei no blog.
Fiz campanha no Facebook, no Twitter, no Instagram.
Fiz campanha no trabalho.
Enchi o saco de muita gente.
Consolidei minha imagem de chato.
Ajudei a aumentar o mind share do Leoni.
Vi muita gente não conseguir votar.
Ajudei.
Excomunguei o sistema.
Não forjei votos, não incentivei, desestimulei quem se ofereceu a fazer.
Tive ajuda de muita gente.
Me emocionei com a boa-vontade de pessoas, até de distantes.
Me decepcionei com o descaso de algumas pessoas próximas.
Comprometi um dia de trabalho.
Tive a compreensão de quem gosta de mim.
Consegui 113 votos.
Venci o paredão!
Fiquei entre os 38 semifinalistas!
Vi as regras mudarem.
Questionei.
Não polemizei.
Fui colocado na primeira das semifinais.
Postei no blog.
Fiz campanha no Facebook, no Twitter, no Instagram.
Fiz campanha durante trabalho.
Estive em terceiro.
Fiz artezinha 1.
Fiz artezinha 2.
Fiz artezinha 3.
Fiz texto abrindo o coração.
Fiz QR-code. Só a Raquel Recuero, a Cissa e a Carmen curtiram. Ninguém deve ter usado. Ehehehe
Fiz promoção com prêmio em cerveja.
Fui entrevistado.
Fui divulgado no jornal impresso. No jornal online.
Fui veiculado na RBS TV.
Enchi o saco de muita gente.
Tive centenas de compartilhamentos.
E dezenas de compartilhamentos de compartilhamentos.
Consolidei minha imagem de chato.
Ajudei a aumentar o mind share do Leoni.
Estimo um alcance de 50 mil pessoas.
Vi muita gente não conseguir votar.
Ajudei.
Excomunguei o sistema.
Não forjei votos, não incentivei, desestimulei quem se ofereceu a fazer.
Estive em quarto.
Tive ajuda de muita gente.
Me re-emocionei com a boa-vontade de outras pessoas, até de distantes.
Me re-decepcionei com o descaso de outras pessoas próximas.
Tive postagem odiosa anônima no blog.
E tive mágoa. Tive pena. Deixei pra lá.
Não desisti mesmo em quinto.
Comprometi dois dias de trabalho.
Tive a compreensão de quem gosta de mim.
Sabia que não dava mais.
Fiquei com raiva das regras do Concurso.
Pensei em comprar usuários de lan house.
Deixei pra lá de novo.
Fui pra quinto.
Segui lutando no fim de semana.
Não foi suficiente.
Tive 1.100 acessos ao blog.
164 curtiram o link do post.
Agora estou com 166 votos.
Presisaria de, no mínimo, outros 400 para tentar ficar em segundo.
Continuar só irá me fazer mais chato do que já estou.
Acabaram-se os amigos.
Mas a música continua.

Vou pensar em uma forma mais contundente de agradecer o voto de alguns e o empenho sobrenatural de outros.

Por enquanto, muito obrigado!