Leite Tetra Pak

Como você abre uma embalagem de leite Tetra Pak? Muita gente pega uma tesoura e corta sem pensar; meio no automático. “Não tem lugar certo, não tem técnica especial, afinal, é só uma caixinha de leite.” EU ODEIO LEITE ABERTO DA FORMA ERRADA!!!! Odeio aqueles buraquinhos que mal passa o leite, muito menos há espaço para que o ar entre. Quando a gente vai se servir, faz “blug, blug, blug” e o líquido sai à galope, salta para fora da xícara e a gente ainda escomunga o pobre do fabricante.

Para que o leite saia com fluência e sem tropeções, algo precisa entrar em fluxo contínuo e tomar o seu lugar – tchan, tchan – o ar. Isso nem chega a ser uma aula de física. Aprendemos essa lição muito antes, com as latas de leite condesado. Não é à toa que, nas embalagens Tetra Pak, existe uma linha pontilhada indicando onde deve-se rasgar ou cortar com a tesoura. Sim, o buraco deve ser grande o suficiente para que, ao mesmo tempo que o líquido saia, possa permitir a entrada de ar.

Por isso, da próxima vez que for abrir um suco, leite ou seja lá o que for, levante as linguetas dos dois lados da caixa, desmanche as dobras superiores originais da caixa, deixando a topo pontudo para cima e corte na linha pontilhada. No site da Tetra Pak tem instruções de como abrir suas embalagens, menos as tradicionais de leite. Então, me diga se a sua vida não vai ficar muito melhor depois disso.

Grandes filmes

Sempre quando eu vejo um filme que considero muito bom, tento classificá-lo no meu ranking mental. Sempre caiu na fórmula do “está entre os 100 melhores que eu já vi”, “está entre os 30 melhores…”. Quando é realmente bom, consigo dizer “está entre os 10 melhores”. É claro que não tenho todos rankeados em ordem, mas é apenas uma forma rápida de posicioná-lo de acordo com minha percepção de sua qualidade. Há cerca de um mês, resolvi começar a recordar todos os ótimos filmes que eu já vi e registrá-los por escrito. Um dia, lembrei de uns 10, no outro de outros 10 e assim foi. São filmes que foram muito bons quando eu vi. Talvez alguns sejam difíceis de assimilar hoje em dia, mas com a ajuda de nossa nostalgia, fica bem mais fácil. Ainda devem estar faltando alguns (ou muitos) na minha relação, mas já faz uma semana que não lembro de nenhum que valha a pena anotar. Então, lá vai, classificados por ordem alfabética.

– Alguém Lá em Cima Gosta de Mim (Oh, God! – 1977)
– Alucinações do Passado (Jacob’s Ladder – 1990)
– Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind – 2004)
– Cidade de Deus (2002)
– Clube da Luta (Fight Club – 1999)
– Corra Lola, Corra (Lola rennt – 1998)
– Crazy People (1990)
– Dama de Vermelho (The Woman in Red – 1984)
– Dançando no Escuro (Dancer in The Dark – 2000)
– De Volta para O Futuro (Back to the Future – 1985)
– Depois de Horas (After Hours – 1985)
– Donnie Darko (2001)
– Doze Macacos, Os (Twelve Monkeys – 1995)
– Efeito Borboleta (The Butterfly Effect – 2004)
– Em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail – 1975)
– Expresso da Meia-noite, O (Midnight Express – 1978)
– Fabuloso Destino de Amélie Poulain, O (Fabuleux destin d’Amélie Poulain, Le – 2001)
– Fale com Ela (Hable con Ella – 2002)
– Fantástica Fábrica de Chocolate, A (Willy Wonka & the Chocolate Factory – 1971)
– Feitiço de Áquila, O (Ladyhawke – 1985)
– Feitiço do Tempo (Groundhog Day – 1993)
– Highlander – O Guerreiro Imortal (Highlander – 1986)
– Homem que Copiava, O (2003)
– Jogos de Guerra (Wargames – 1983)
– Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels – 1998)
– Kramer vs. Kramer (1979)
– Lugar Chamado Notting Hill, Um (Notting Hill – 1999)
– Magnólia (Magnolia – 1999)
– Nimitz – De Volta Ao Inferno (The Final Countdown – 1980)
– Pink Floyd – The Wall (1982)
– Princesa e o Guerreiro, A (Krieger und die Kaiserin, Der – 2000)
– Pulp Fiction (1994)
– Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich – 1999)
– Redentor (2004)
– Seven – Os Sete Crimes Capitais (Seven – 1995)
– Sexto Sentido (Sixth Sense, The – 1999)
– Show de Truman, O – O Show da Vida (Truman Show, The – 1998)
– Silêncio dos Inocentes, O (Silence of the Lambs, The – 1991)
– Sinais (Signs – 2002)
– Superman (1978)
– Superman II (1980)
– Tiros em Columbine (Bowling for Columbine – 2002)
– Vanilla Sky (2001)
– Vida de Brian, A (Life of Brian – 1979)
– Vila, A (The Village – 2004)

Weezer em Curitiba

Todo mundo sabe da minha devoção pelo Weezer, principalmente pelo álbum Pinkerton. Dia 24 de setembro, eles tocam no Curitiba Rock Festival (que acontece dias 24 e 25). Eu, a Stela e a Malu estaremos na cidade para vê-los e visitar amigos. Claro, que só eu vou ao show. Não há confirmação ainda se eles tocarão em outras cidades do Brasil, como Porto Alegre, por exemplo, mas já garantimos nossa passagem antecipadamente, pois é bem mais barato assim. Se, pelo menos, 50% do show for dedicado ao melhor disco do mundo, eu serei o cara mais feliz do mundo.

Por uma boa causa?

Eu não sei. Não sou e nunca fui petista. Mas sempre admirei a obstinação ideológica deles. Mesmo que eu não concordasse com ela. Esse escândalo todo me fez pensar em algumas coisas. Até o momento, pelo menos, o que parece é que nenhum membro do partido utilizou o “esquema” para tirar proveito financeiro próprio. A questão central era fortalecer suas idéias e seus projetos na câmara. Tenho a impressão que, ao tomar essa decisão, o PT pensou: “são todos uma corja; se é para serem corrompidos, que seja por um boa causa; a nossa causa.” Só que, aí, o PT se esquece de um detalhe, de que os fins não justificam os meios. E, pior, de que usar dinheiro público para isso é uma traição à nação e aos seus próprios princípios. E foi nessa mesma onda que a campanha para presidente se baseou, sendo extremamente populista, prometendo empregos que não existem nem existirão; falando o que o eleitor queria ouvir. O PT viu que para chegar lá, não havia outra forma senão a método comum, utilizado por todos há séculos: “minha causa é justa, não importa as ferramentas que eu use.” E é aí que entram todos os grandes vilões da história, acreditando na sua verdade e usando a mentira para alcançá-la. Heloísa Helena já sabia disso quando deixou o partido? Quem lá dentro do Planalto não sabia disso? Imaginem quantas situações semelhantes existem e ninguém comenta; acobertam, como quem diz: “ah, isso é assim mesmo”.

Raquelzinha no Paraguay (parte 2)

(continuação do post anterior)

O homem estava com a cabeça baixa, contando o dinheiro. Eu cheguei perto. Ele nem me olhou. Comecei a falar. Ele não levantou a cabeça: “sou a Raquel. O senhor prometeu me devolver o dinheiro. Eu vim buscar.” Ele parou de contar o dinheiro. Não olhou na minha cara. Respirou fundo. Pensei que ele fosse tirar uma arma de baixo do balcão, como acontece nos filmes. Mas não. Ele voltou a contar o dinheiro. Separou um montinho e me entregou. Apesar de eu estar bem perto, ele pediu para uma das funcionárias cor-de-rosa fazer a entrega: “dá pra ela.” E, novamente, ficou mudo. A menina me deu o dinheiro e eu fui embora. O Seu Muhamed era legal. Pelo menos pareceu legal comigo. Era quase como se fosse meu “amigo”. Agora, eu podia ir embora, ou quase.
Além de toda a minha função, eu tinha ido para o Paraguay com uma encomenda de uma amiga – trazer a câmera mais barata que eu encontrasse para ela dar aos filhos. Comprei uma por 99 dólares e voltei pro ônibus. Só que ainda não iríamos embora. O ônibus precisava esperar até a hora combinada para partir. Aos poucos, os passageiros retornavam com suas sacolas e iam sabendo do meu feito: “O quê? A Raquel conseguiu o dinheiro de volta? Eu nunca vi isso acontecer em 20 anos que trabalho nisso.” A hora marcada chegou, mas duas pessoas ainda não tinham voltado. Não interessava, era preciso partir, como o combinado. Jogaram as malas deles para fora do ônibus para pegarem depois no estacionamento. É assim que eles fazem. Quem pensa que os problemas tinham acabado se enganou. Estavam apenas começando.
A volta, para quem traz muamba, é sempre mais tensa do que a ida. Na ida, o perigo é de assalto. Na volta, a apreensão da mercadoria é que preocupa. Aquela era a maior compra do ano deles. Todos eram camelôs e estavam com o dinheiro ganho do Natal. A cada carro que ultrapassava, a cada posto policial, o perigo era iminente. Eu estava tranqüila, afinal, não tinha comprado nada de valor nos “hermanos”; pelo contrário, tinha vendido! Eu só tinha dinheiro e ninguém assalta um ônibus na volta, porque não há grana alguma. Foi quando me dei conta: eu era a única a ter dinheiro; a única que teria como, sob pressão dos viajantes, oferecer uma, digamos, “gentileza” aos policiais no caso de uma batida. “Ah, não! Perder o meu dinheiro, não!”
E não é que mandaram parar o ônibus, bem na última barreira? Eram cerca de 2 da madrugada e nós já estávamos no Rio Grande do Sul. “Desce todo mundo do ônibus!”, gritou o policial. O pessoal da excursão já era todo meu amigo e me alertaram para esconder a camerazinha. Iriam revistar primeiro as mulheres. Então, eu dei a câmera para o motorista. O manual, coloquei dentro de um banco rasgado. Em troca do favor do gentil condutor, depois da revista feminina, enchi meus braços de relógios, as calças de placas de computadores e a mochila de controles de videogames, além de colocar a camerazinha da minha amiga na calcinha. Ninguém iria procurar ali. As revistas continuaram. Tiraram as sacolas do ônibus, averiguaram todo o veículo e acharam o manual que eu tinha escondido. O oficial perguntou em voz alta: “onde está a câmera desse manual?”. Todo mundo sabia que a câmera era minha. Raciocinei o mais rápido que eu conseguia e inventei uma história: disse que havia levado para consertar e que os manuais eu não tinha devolvido. Eles não acreditaram. Pediram para ver a minha mochila. Me seguraram pelo braço e descobriram os relógios e os controles de videogame na bolsa. Eu jurei pra eles que eu não era contrabandista; que eu era jornalista. Pediram para ver meu registro, mas eu não tinha. Encontraram uns remédios que eu tomo sob prescrição médica na minha bolsa e pediram a receita. Eu também não tinha. “Você sabia que tráfico internacional de medicamentos é pior que contrabando?”. “Ai, meu Deus!”. Eu tava ferrada. Expliquei direitinho, fiz cara de choro, implorei e disse que eu não era camelô. Fiquei dizendo isso o tempo todo. E parece que funcionou, pois eles acreditaram em mim. Não sei como, mas eu consegui. E nem precisei usar o meu dinheiro (é claro que eu nem faria isso). Ainda salvei as placas de computador do motorista. Mas deram cota zero para todo o mundo e apreenderam o ônibus. Coitado do pessoal.
Eu estava em uma cidade desconhecida, mas lembrei que tinha um amigo que morava lá e liguei pra ele. Ele era da aeronáutica e foi me buscar de uniforme. “Que vergonha!”. Parecia que eu estava acorbertada por gente graúda. Ele me emprestou dinheiro para a passagem, pois eu só tinha dólares, e voltei pra minha cidade de ônibus de linha. Eu estava há 3 dias sem dormir e comer direito. Ah, e sem tomar banho, também. Pobre da câmera da minha amiga.
No final das contas, resolvi comprar o equipamento que eu queria de São Paulo. Paguei três vezes mais, mas não me arrependi. O trabalho que fiz para essa grande empresa foi incrível; uma das experiências mais importantes da minha vida, depois da viagem ao Paraguay, é claro.

Raquelzinha no Paraguay (parte 1)

A Raquelzinha é um quadro. Recentemente, ela se meteu em uma aventura bastante pitoresca. Resolvi escrever a história, através do depoimento dela, para enviarmos ao quadro Retrato Falado do Fantástico. Publico aqui ela na íntegra. É grande, mas pitoresca.

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Meu nome é Raquel, tenho 25 anos, moro em Pelotas, Rio Grande do Sul. Sou formada em Comunicação Social nas habilitações Jornalismo e Publicidade & Propaganda. Trabalho em uma agência como produtora gráfica, mas minha maior paixão é a fotografia. Já participei e/ou desenvolvi diversos projetos e exposições. No final de 2004, uma grande empresa, de expressão nacional e internacional, me contratou como fotógrafa para registrar os aspectos sociais, econômicos e ambientais de 17 cidades do sul do meu Estado. O meu equipamento fotográfico profissional, até então, era convencional (a base de filme 35mm), só que para aceitar a proposta com a agilidade exigida, eu precisaria adquirir um equipamento digital. E é, aí, que começa a minha aventura.
O preço do equipamento que eu pretendia comprar, no Brasil, era 3 vezes maior do que no Paraguay e consumiria quase todo o dinheiro que eu havia cobrado pelo trabalho. Não pensei duas vezes em pedir um favor ao amigo de um amigo de um amigo que estava indo para lá – ele só faria isso só para uma amiga de um amigo de um amigo. “É claro” que não era nada profissional ou ilegal. Era algo quase íntimo. Digamos, um favor comissionado. Mal sabia eu que meus problemas já estavam iniciando.
Já que o equipamento era profissional – algo bem específico – resolvi fazer uma pesquisa de preços nas lojas paraguaias por telefone. Achei o lugar que tinha o que eu queria, negociei o preço e mandei ele ir, especificamente, lá. A loja não fazia parte das que ele freqüentava habitualmente e, para piorar as coisas, estávamos perto do Natal – época de grande movimento comercial na fronteira e período em que a fiscalização é redobrada. Mesmo assim, cinco dias depois, nosso “amigo” volta, são e salvo, com a minha câmera. Paguei o combinado e fui pra casa. Eu estava algariadíssima, como uma criança que ganha um novo brinquedo. Mal podia esperar para chegar, carregar a bateria e começar a fotografar tudo. Só que o que aconteceu foi um pouquinho diferente disso. A primeira foto que eu bati saiu com um risco. O sensor da máquina estava com defeito. Eu bem que tinha sido avisada sobre os possíveis inconveniente de se comprar do Paraguay. É claro que o amigo do amigo do amigo, a essa altura, não era mais amigo de ninguém e não se responsabilizou pelo produto defeituoso – afinal, eu tinha dado o endereço de onde ele deveria comprar e ele seguiu a risca o meu pedido e tratava-se de um favor. Mais do que imediatamente, liguei para a loja, falei com o dono – chamaremos ele aqui de Seu Muhamed. Eu combinei que mandaria o equipamento de volta e ele devolveria meu dinheiro. Pelo menos essa troca, o “amigo” concordou em fazer em sua breve próxima viagem. Só que, alguns dias depois, quando ele retornou, me apresentou, ao invés do dinheiro, uma outra máquina. “Bom”, pensei eu, “se estiver funcionando desta vez, caso encerrado”. E ela estava, só que ao analisá-la com maior atenção, descobri uma etiqueta de conserto, feito no Brasil. Ou seja, além de usado, o equipamento era recauchutado. Eu não queria. Paguei por novo, quero um novo. O “amigo” disse que não quiseram devolver o dinheiro e que ele foi obrigado a trazer outra câmera: “ninguém devolve dinheiro no Paraguay!”, exclamou com veemência. Foi aí que ele me falou que, se tivesse que levar o equipamento em sua próxima viagem, não se responsabilizaria por uma apreensão na fronteira – “muy amigo”. As coisas estavam se complicando. O Natal já tinha passado. Eu estava perdendo tempo e dinheiro. Precisava resolver sozinha a situação.
Fui eu para o Paraguay. Peguei o primeiro ônibus que estava saindo. Era uma excursão cheia de “amigos”. Na viagem anterior, haviam sido assaltados na ida e o motorista baleado. Não é preciso dizer que o clima da viagem era muito tenso. Tinha uma velha atrás de mim que não parava de falar no assalto; rezava a cada freada do ônibus. Outro, do meu lado, não acreditou no que eu iria fazer e reforçou o que o “muy amigo” tinha me dito: “ninguém devolve dinheiro do Paraguay”. Além disso, eu não conhecia nada do lado de lá da fronteira. Combinei, então, com o dono da excursão, que ele me levaria na loja do Seu Muhamed. Para o meu desespero, mais um problema inesperado aconteceu: o homem começou a ter uma crise de visícula. Era tão forte que o ônibus precisava parar em todos os postos de pedágio para ele ser sedado. Não era difícil imaginar o estado dele quando chegamos ao Paraguay? Dormia feito uma pedra e eu não conseguia acordá-lo. Sacudia de um lado, sacudia do outro, gritava e nada. O alarme do relógio dele não parava de tocar e ele não ouvia, também. Todo mundo já tinha saído do ônibus rumo a suas compras e eu, ali, cutucando o homem para que despertasse de seu sono induzido. Finalmente – eu sou bastante insistente –, consegui. Pegamos a perua, com mais umas 30 pessoas e atravessamos a Ponte da – vejam só – “Amizade”.
Ainda eram 6 horas da manhã, mas a visão que tive ao chegar do outro lado da ponte era, no mínimo, dantesca. Muita poeira no ar; milhares de pessoas se acotovelando, com caixas, sacolas. Gente tomando tererê e cuspindo no chão; cuspindo nas outras pessoas. Parecia uma cena do filme Mad Max. Eu me sentia lá – o mundo acabou e aquilo era uma das poucas civilizações remanescentes, lutando pelo pouco de água que sobrara, ou pior, por equipamentos eletrônicos e luzinhas de Natal. Onde eu fui me meter?
Andamos, andamos, nos perdemos, nos achamos, nos perdemos. Até que, ao encontrar a loja, apesar de todas as outras já estarem abertas, as portas estavam fechadas. Parece que o Seu Muhamed tinha dormido tarde na noite anterior. Eu fiquei torcendo que, pelo menos, tivesse dormido bem. Na frente da loja, além de alguns clientes que aguardavam, estavam umas moças de uniforme cor-de-rosa, batom cor-de-rosa, tiara cor-de-rosa e meia calça cor-de-rosa. Eram funcionárias da loja. Eu realmente acreditei que estava no futuro – um futuro decadente, pobre, sujo, mas, ao mesmo tempo, tecnológico. De repente, uma poeira (maior ainda) levantou no horizonte. A multidão começou a abrir caminho. Eu vi um carro. Um BMW, um Mercedes, um Audi, sei lá. Um desses carrões pretos que o pessoal da máfia usa. A porta se abriu e Seu Muhamed desembarcou. A loja se abriu e ele entrou. Ele parecia o Osama Bin Laden. Todos foram atrás, inclusive eu. Uma das funcionárias cor-de-rosa me atendee. Expliquei a situação e ela me pediu a nota fiscal. Mas eu não tinha nota. Onde se viu nota fiscal no Paraguay? Ela me disse que, então, a devolução do dinheiro era impossível. Não me dei por vencida e falei: “quero ver o Seu Muhamed!”. Com ar irônico, ela apontou para o caixa e disse: “é ele, boa sorte”.
(continua acima…)