Presentes

Meu aniversário se aproxima e serei cara-de-pau. Vou fazer que nem a Gabi faz. Na verdade, estou é ajudando quem gostaria de me presentear. Então, aqui vai minha lista de desejos. À medida que eu for lembrando de mais coisas, vou acrescentando.

– chaveiro com bolso transparente para guardar controle do alarme do carro (pois não consigo comprar outro e o meu quebrou a parte que prende no chaveiro)
– cabo original USB para celular Nokia 6820, pois o genérico não funciona (pelo menos nos micros que tentei)
– DVDs Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Quero Ser John Malkovich, Aimee Mann (o único que tem)
– porta-CDs, tipo álbum de fotografias, com folhas avulsas não-plásticas (tnt, pode ser), por causa da umidade

Eu queria ser um azulzinho

Onde essa gente tirou carteira de motorista? Ninguém tem a mínima idéia das mais básicas leis de trânsito. Não tem coisa que me deixe mais irritado do que dirigir em Pelotas. As pessoas não sabem o que são duas pistas, faixa de segurança, dar passagem pela esquerda, dar pisca, estacionar com inteligência para não ocupar o lugar de dois. Imaginem se vão saber como funciona uma rótula – sim, a moda, agora, na cidade são as rótulas, que eu me lembre, são, no mínimo, umas 3 feitas em cerca de 2 anos. Mas eu explico aqui como entrar numa. Não importa de onde você venha, não há via preferencial. Por isso, há placas de “PARE” ou de “DÊ A PREFERÊNCIA”. Olhem meu desenho.

Imagine que você está entrando na rótula vindo de “A”. Deve, então, dar a preferência somente para quem vem da sua esquerda (D), até porque ninguém pode vir da direita. Mas tem uns idiotas que, por estarem transitando em uma via aparentemente mais “importante” (B) acham que não devem se preocupar com quem vem da esquerda (A). Vou dizer, se eu venho de “A” eu nem olho para “B”. Claro que fico com o pé do freio de prontidão e cuido de canto de olho, mas toco ficha.
Outro caso é na esquina da Félix da Cunha com Avenida Bento Gonçalves.

Se você vem pela Félix e pretende atravessar a Avenida para dobrar na Anchieta, à direita, você se posicionar à direita desde a Félix. Para não cortar ninguém. Cara, que raiva que me dá quando alguém me fecha vindo da esquerda para dobrar à direita da Anchieta. As duas pistas continuam existindo mesmo na curva. As pessoas mal conhecem pistas vão entender que na curva elas não se misturam.

Bom, nem vou falar do que é aquilo na entrada do Big. Além de ser confuso, as pessoas complicam muito mais.

Se lembram do desenho aquele do Pateta no trânsito? Me sinto assim, às vezes. É claro que meus motivos são menos competitivos e mais inconformados, mas eu fico possesso. Eu queria ser um azulzinho e ganhar comissão pelas multas. Ah, que maravilha! Ia até tirar fotografia para que ninguém pudesse recorrer. “Tá aqui, ó. Sinal vermelho! Vinte uma horas do dia tal. Como não era você? Só porque estava com essa loira no banco do carona não era você? Vá se explicar para a sua mulher, a multa tá dada.”

NET ou SKY+?

Para quem não gosta de TV ou para quem gosta, não há nada mais bacana e funcional do que assinar a SKY+. Para quem não sabe, SKY+ é um sintonizador de TV por satélite com sistema de gravação em HD. Através de uma grade de programação você registra os programas que deseja gravar para ver depois. Eu assinei há mais de 7 meses e não me arrependo. É uma das poucas coisas que fiz por puro impulso consumista e não me arrependi depois. Gravando, você assiste o que gosta da hora que pode, dá para pular as partes menos interessantes, não existem mais intervalos comerciais. Então, um programa de uma hora, você acaba levando em, no máximo 45 minutos para ver. Como todos sabem, o tempo está correndo cada vez mais rápido no mundo (falo disso em outro post), então esse artifício se faz necessário. Ehehe

Como falei antes, é sim, uma TV para quem também não gosta de TV. Porque, de verdade, ninguém desgosta totalmente de TV, o que acontece é que a programação que é apresentada no momento em que você se dispõe a sentar na frente da caixinha mágica nem sempre lhe satisfaz, o que pode tornar o momento pouco gratificante.

O melhor de tudo é que o preço é extremamente convidativo. Não fiz uma comparação precisa, mas os pacotes oferecidos são praticamente os mesmos da NET. O custo é o mesmo também, com a exceção de que na SKY+ você precisa pagar 19,90 a mais por mês, já que o sistema funciona como se fosse um ponto-extra, pois dá para gravar um canal equanto se assiste outro, ou seja, há dois sintonizadores. Se você assinar o pacote completo, sem os pay-per-views, vai gastr cerca de R$130,00 mensais. Há preços menores para os mais básicos também. A única coisa que pesa mais no bolso é que você precisa adquirir o sintonizador/gravador, que deve estar custando um pouco mais de R$1.000,00. Na Sky também entrou os canais da HBO. Eles ainda estão em fase de degustação e não sei se serão vendidos à parte na SKY, como na NET, ou se integrarão o pacote total. A grande diferença da NET, mas que para mim não faz a mínima falta, é a falta de alguns canais abertos, como Bandeirantes, SBT, Record e Globo. De fato, a Globo só pode ser sintonizada pela SKY nas cidades em que há transmissão do canal local via satélite, como no Rio, São Paulo, Porto Alegre, Bahia e Minas Gerais (se não me engano). No caso de Pelotas, eles não abrem a Globo, provavelmente por causas contratuais com a RBS. Os comerciais locais precisam atingir o telespectador e como a RBS TV Pelotas não é gerada por satélite, ficamos na mão. Mas não é nada que o jeitinho brasileiro não resolva. Liguei para a Central de Relacionamento e pedi mudança do meu endereço de instalação para o Rio, permanecendo com o de cobrança em Pelotas. Entrou a Globo Rio pra mim, em estéreo. Shows agora, são outra coisa. A TV Com também é uma ausência sentida. Eu gostava de assistir o Café TV COM.

O aparelho SKY+ tem saída de áudio óptica que possibilita a gravação perfeita do som em um aparelho externo, para o caso de quem gosta de gravar em CD o áudio de shows e programas de música ao vivo, como eu.

Gravei todos os episódios do Lost, o que praticamente lotou o HD de 80gb. Estou esperando alguém que ainda não viu para eu rever tudo junto. Só depois eu vou apagar. Aliás, o último capítulo do Lost é nesta segunda-feira.

O Grande 69

Todas as teorias que dizem que o homem nunca foi à lua, começam a fazer sentido para mim. Sempre encarei as histórias de que Kubrick teria sido contratado pelo governo norte-americano, em 1969, durante a Guerra Fria, para fazer as imagens dos primeiros passos em solo lunar, como causos pitorescos e divertidos, principalmente as alegações técnicas de iluminação das imagens etc. Então, agora, alguém da NASA, do “MAZZA” ou do “SEASA”, por favor me explica como é que, depois de 36 anos de desenvolvimento tecnológico, depois de todos os acidentes fatais com ônibus espaciais e, principalmente, depois dos 2 bilhões de dólares investidos somente para aumentar a segurança da atual viagem da Discovery – como, pelo amor de Deus? – a mesma tal “esponja”, que se soltou na decolagem da Columbia e foi a responsável pelos danos que causaram a explosão da nave na volta à Terra, desprende-se novamente, exigindo que reparos sejam feitos no espaço pelos astronautas? Será que 2 bilhões de dólares não são sufientes para comprar toda a silver tape do mundo e fazer um reparo de qualidade? Minha filha, de 7,5 meses, não deixa cair a esponjinha quando decola da banheira, após o banho. Uma vaca, depois que leva choque em uma cerca elétrica, aprende e nunca mais chega perto de outra. Realmente, pra mim, o homem não chegou à lua coisa nenhuma. Na verdade, nem descobriu a América. Eta, bichinho troncho.

Dando pipoca às capivaras

Saiu a lista de bandas para o Curitiba Rock (antigo “Pop”) Festival. O Weezer toca no final do dia 24 e nenhuma outra grande banda dos cenários nacional ou internacional dará as caras, além das caompetentes gaúcha Ultramen e carioca Acabou La Tequila. Parece que o festival inteiro foi feito para abrir o show do Weezer, mas como eles tocam no final do primeiro dia, estou descartando essa opção e não encontrando motivo algum para a tamanha redução do evento . A edição passada apresentou Teenage Fanclub e Pixies, além de outros bons nomes nacionais como Frank Jorge, Wander Wildner, Ludov, Autoramas e Pin Ups. O que será que fez o festival dar pra trás? O pior é não ter ingressos separados para cada dia. Terei que marchar com R$140,00 (comprando antecipadamente – a partir do dia 4 de agosto no site) com direito a ver as duas noites. Mas é claro que só irei no dia 24. Vou tentar vender o passe para a segunda noite (se é que será possível e se é que alguém vai querer) para não marchar com essa grana toda. Creio que o valor de mercado desse meio acesso não deva ir além de R$10,00. O site oficial está sendo montado aos poucos, mas dá para ir vendo uma prévia em www.curitibapopfestival.com.

dia 24/9
o sete (Rio de Janeiro)
suite minimal (Paraná)
charme chulo (Paraná)
rádio de outono (Pernambuco)
cidadão instigado (Ceará)
leela (Rio de Janeiro)
acabou la tequila (Rio de Janeiro)
weezer

dia 25/9
black maria (Paraná)
karine alexandrino (Ceará)
móveis coloniais de acaju (Distrito Federal)
los diaños (Paraná)
biônica (São Paulo)
hurtmold (SP)
patife band (São Paulo)
ultramen (Rio Grande do Sul)

Leite Tetra Pak

Como você abre uma embalagem de leite Tetra Pak? Muita gente pega uma tesoura e corta sem pensar; meio no automático. “Não tem lugar certo, não tem técnica especial, afinal, é só uma caixinha de leite.” EU ODEIO LEITE ABERTO DA FORMA ERRADA!!!! Odeio aqueles buraquinhos que mal passa o leite, muito menos há espaço para que o ar entre. Quando a gente vai se servir, faz “blug, blug, blug” e o líquido sai à galope, salta para fora da xícara e a gente ainda escomunga o pobre do fabricante.

Para que o leite saia com fluência e sem tropeções, algo precisa entrar em fluxo contínuo e tomar o seu lugar – tchan, tchan – o ar. Isso nem chega a ser uma aula de física. Aprendemos essa lição muito antes, com as latas de leite condesado. Não é à toa que, nas embalagens Tetra Pak, existe uma linha pontilhada indicando onde deve-se rasgar ou cortar com a tesoura. Sim, o buraco deve ser grande o suficiente para que, ao mesmo tempo que o líquido saia, possa permitir a entrada de ar.

Por isso, da próxima vez que for abrir um suco, leite ou seja lá o que for, levante as linguetas dos dois lados da caixa, desmanche as dobras superiores originais da caixa, deixando a topo pontudo para cima e corte na linha pontilhada. No site da Tetra Pak tem instruções de como abrir suas embalagens, menos as tradicionais de leite. Então, me diga se a sua vida não vai ficar muito melhor depois disso.

Grandes filmes

Sempre quando eu vejo um filme que considero muito bom, tento classificá-lo no meu ranking mental. Sempre caiu na fórmula do “está entre os 100 melhores que eu já vi”, “está entre os 30 melhores…”. Quando é realmente bom, consigo dizer “está entre os 10 melhores”. É claro que não tenho todos rankeados em ordem, mas é apenas uma forma rápida de posicioná-lo de acordo com minha percepção de sua qualidade. Há cerca de um mês, resolvi começar a recordar todos os ótimos filmes que eu já vi e registrá-los por escrito. Um dia, lembrei de uns 10, no outro de outros 10 e assim foi. São filmes que foram muito bons quando eu vi. Talvez alguns sejam difíceis de assimilar hoje em dia, mas com a ajuda de nossa nostalgia, fica bem mais fácil. Ainda devem estar faltando alguns (ou muitos) na minha relação, mas já faz uma semana que não lembro de nenhum que valha a pena anotar. Então, lá vai, classificados por ordem alfabética.

– Alguém Lá em Cima Gosta de Mim (Oh, God! – 1977)
– Alucinações do Passado (Jacob’s Ladder – 1990)
– Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind – 2004)
– Cidade de Deus (2002)
– Clube da Luta (Fight Club – 1999)
– Corra Lola, Corra (Lola rennt – 1998)
– Crazy People (1990)
– Dama de Vermelho (The Woman in Red – 1984)
– Dançando no Escuro (Dancer in The Dark – 2000)
– De Volta para O Futuro (Back to the Future – 1985)
– Depois de Horas (After Hours – 1985)
– Donnie Darko (2001)
– Doze Macacos, Os (Twelve Monkeys – 1995)
– Efeito Borboleta (The Butterfly Effect – 2004)
– Em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail – 1975)
– Expresso da Meia-noite, O (Midnight Express – 1978)
– Fabuloso Destino de Amélie Poulain, O (Fabuleux destin d’Amélie Poulain, Le – 2001)
– Fale com Ela (Hable con Ella – 2002)
– Fantástica Fábrica de Chocolate, A (Willy Wonka & the Chocolate Factory – 1971)
– Feitiço de Áquila, O (Ladyhawke – 1985)
– Feitiço do Tempo (Groundhog Day – 1993)
– Highlander – O Guerreiro Imortal (Highlander – 1986)
– Homem que Copiava, O (2003)
– Jogos de Guerra (Wargames – 1983)
– Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels – 1998)
– Kramer vs. Kramer (1979)
– Lugar Chamado Notting Hill, Um (Notting Hill – 1999)
– Magnólia (Magnolia – 1999)
– Nimitz – De Volta Ao Inferno (The Final Countdown – 1980)
– Pink Floyd – The Wall (1982)
– Princesa e o Guerreiro, A (Krieger und die Kaiserin, Der – 2000)
– Pulp Fiction (1994)
– Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich – 1999)
– Redentor (2004)
– Seven – Os Sete Crimes Capitais (Seven – 1995)
– Sexto Sentido (Sixth Sense, The – 1999)
– Show de Truman, O – O Show da Vida (Truman Show, The – 1998)
– Silêncio dos Inocentes, O (Silence of the Lambs, The – 1991)
– Sinais (Signs – 2002)
– Superman (1978)
– Superman II (1980)
– Tiros em Columbine (Bowling for Columbine – 2002)
– Vanilla Sky (2001)
– Vida de Brian, A (Life of Brian – 1979)
– Vila, A (The Village – 2004)

Weezer em Curitiba

Todo mundo sabe da minha devoção pelo Weezer, principalmente pelo álbum Pinkerton. Dia 24 de setembro, eles tocam no Curitiba Rock Festival (que acontece dias 24 e 25). Eu, a Stela e a Malu estaremos na cidade para vê-los e visitar amigos. Claro, que só eu vou ao show. Não há confirmação ainda se eles tocarão em outras cidades do Brasil, como Porto Alegre, por exemplo, mas já garantimos nossa passagem antecipadamente, pois é bem mais barato assim. Se, pelo menos, 50% do show for dedicado ao melhor disco do mundo, eu serei o cara mais feliz do mundo.

Por uma boa causa?

Eu não sei. Não sou e nunca fui petista. Mas sempre admirei a obstinação ideológica deles. Mesmo que eu não concordasse com ela. Esse escândalo todo me fez pensar em algumas coisas. Até o momento, pelo menos, o que parece é que nenhum membro do partido utilizou o “esquema” para tirar proveito financeiro próprio. A questão central era fortalecer suas idéias e seus projetos na câmara. Tenho a impressão que, ao tomar essa decisão, o PT pensou: “são todos uma corja; se é para serem corrompidos, que seja por um boa causa; a nossa causa.” Só que, aí, o PT se esquece de um detalhe, de que os fins não justificam os meios. E, pior, de que usar dinheiro público para isso é uma traição à nação e aos seus próprios princípios. E foi nessa mesma onda que a campanha para presidente se baseou, sendo extremamente populista, prometendo empregos que não existem nem existirão; falando o que o eleitor queria ouvir. O PT viu que para chegar lá, não havia outra forma senão a método comum, utilizado por todos há séculos: “minha causa é justa, não importa as ferramentas que eu use.” E é aí que entram todos os grandes vilões da história, acreditando na sua verdade e usando a mentira para alcançá-la. Heloísa Helena já sabia disso quando deixou o partido? Quem lá dentro do Planalto não sabia disso? Imaginem quantas situações semelhantes existem e ninguém comenta; acobertam, como quem diz: “ah, isso é assim mesmo”.

Raquelzinha no Paraguay (parte 2)

(continuação do post anterior)

O homem estava com a cabeça baixa, contando o dinheiro. Eu cheguei perto. Ele nem me olhou. Comecei a falar. Ele não levantou a cabeça: “sou a Raquel. O senhor prometeu me devolver o dinheiro. Eu vim buscar.” Ele parou de contar o dinheiro. Não olhou na minha cara. Respirou fundo. Pensei que ele fosse tirar uma arma de baixo do balcão, como acontece nos filmes. Mas não. Ele voltou a contar o dinheiro. Separou um montinho e me entregou. Apesar de eu estar bem perto, ele pediu para uma das funcionárias cor-de-rosa fazer a entrega: “dá pra ela.” E, novamente, ficou mudo. A menina me deu o dinheiro e eu fui embora. O Seu Muhamed era legal. Pelo menos pareceu legal comigo. Era quase como se fosse meu “amigo”. Agora, eu podia ir embora, ou quase.
Além de toda a minha função, eu tinha ido para o Paraguay com uma encomenda de uma amiga – trazer a câmera mais barata que eu encontrasse para ela dar aos filhos. Comprei uma por 99 dólares e voltei pro ônibus. Só que ainda não iríamos embora. O ônibus precisava esperar até a hora combinada para partir. Aos poucos, os passageiros retornavam com suas sacolas e iam sabendo do meu feito: “O quê? A Raquel conseguiu o dinheiro de volta? Eu nunca vi isso acontecer em 20 anos que trabalho nisso.” A hora marcada chegou, mas duas pessoas ainda não tinham voltado. Não interessava, era preciso partir, como o combinado. Jogaram as malas deles para fora do ônibus para pegarem depois no estacionamento. É assim que eles fazem. Quem pensa que os problemas tinham acabado se enganou. Estavam apenas começando.
A volta, para quem traz muamba, é sempre mais tensa do que a ida. Na ida, o perigo é de assalto. Na volta, a apreensão da mercadoria é que preocupa. Aquela era a maior compra do ano deles. Todos eram camelôs e estavam com o dinheiro ganho do Natal. A cada carro que ultrapassava, a cada posto policial, o perigo era iminente. Eu estava tranqüila, afinal, não tinha comprado nada de valor nos “hermanos”; pelo contrário, tinha vendido! Eu só tinha dinheiro e ninguém assalta um ônibus na volta, porque não há grana alguma. Foi quando me dei conta: eu era a única a ter dinheiro; a única que teria como, sob pressão dos viajantes, oferecer uma, digamos, “gentileza” aos policiais no caso de uma batida. “Ah, não! Perder o meu dinheiro, não!”
E não é que mandaram parar o ônibus, bem na última barreira? Eram cerca de 2 da madrugada e nós já estávamos no Rio Grande do Sul. “Desce todo mundo do ônibus!”, gritou o policial. O pessoal da excursão já era todo meu amigo e me alertaram para esconder a camerazinha. Iriam revistar primeiro as mulheres. Então, eu dei a câmera para o motorista. O manual, coloquei dentro de um banco rasgado. Em troca do favor do gentil condutor, depois da revista feminina, enchi meus braços de relógios, as calças de placas de computadores e a mochila de controles de videogames, além de colocar a camerazinha da minha amiga na calcinha. Ninguém iria procurar ali. As revistas continuaram. Tiraram as sacolas do ônibus, averiguaram todo o veículo e acharam o manual que eu tinha escondido. O oficial perguntou em voz alta: “onde está a câmera desse manual?”. Todo mundo sabia que a câmera era minha. Raciocinei o mais rápido que eu conseguia e inventei uma história: disse que havia levado para consertar e que os manuais eu não tinha devolvido. Eles não acreditaram. Pediram para ver a minha mochila. Me seguraram pelo braço e descobriram os relógios e os controles de videogame na bolsa. Eu jurei pra eles que eu não era contrabandista; que eu era jornalista. Pediram para ver meu registro, mas eu não tinha. Encontraram uns remédios que eu tomo sob prescrição médica na minha bolsa e pediram a receita. Eu também não tinha. “Você sabia que tráfico internacional de medicamentos é pior que contrabando?”. “Ai, meu Deus!”. Eu tava ferrada. Expliquei direitinho, fiz cara de choro, implorei e disse que eu não era camelô. Fiquei dizendo isso o tempo todo. E parece que funcionou, pois eles acreditaram em mim. Não sei como, mas eu consegui. E nem precisei usar o meu dinheiro (é claro que eu nem faria isso). Ainda salvei as placas de computador do motorista. Mas deram cota zero para todo o mundo e apreenderam o ônibus. Coitado do pessoal.
Eu estava em uma cidade desconhecida, mas lembrei que tinha um amigo que morava lá e liguei pra ele. Ele era da aeronáutica e foi me buscar de uniforme. “Que vergonha!”. Parecia que eu estava acorbertada por gente graúda. Ele me emprestou dinheiro para a passagem, pois eu só tinha dólares, e voltei pra minha cidade de ônibus de linha. Eu estava há 3 dias sem dormir e comer direito. Ah, e sem tomar banho, também. Pobre da câmera da minha amiga.
No final das contas, resolvi comprar o equipamento que eu queria de São Paulo. Paguei três vezes mais, mas não me arrependi. O trabalho que fiz para essa grande empresa foi incrível; uma das experiências mais importantes da minha vida, depois da viagem ao Paraguay, é claro.