Acho que só agora entendi o que sou

O infantilismo de direita me chama de isentão. O infantilismo de esquerda também me chama de isentão. Os ponderados de direita me chamam de esquerdista. Os ponderados de esquerda me chamam de direitista. As pessoas de centro me chamam de centro. Às vezes se decepcionam.

Percebo que toda vez que me rotulam politicamente, estão, na verdade, enquadrando a si mesmos; reafirmando qual é seu grupo.

Nessa disputa política bipolarizada em que nosso país se tornou, mais do que defender ideais ou a forma certa de fazer as coisas, as pessoas buscam reputação e preservação dentro de suas tribos.

É quase uma questão de sobrevivência. Como na evolução das espécies, adaptar-se parece mais importante do que preservar as próprias convicções.

Não sei se estão exercendo sua liberdade de fato ou apenas alinhando-se ao discurso de seus pares — o que, de certa forma, também é um afirmação de vontade. É melhor cultivar algumas relações do que demonstrar uma convicção própria e perigosa de ser descoberta.

Se seu candidato disser que é contra o fim da escala 6×1, dirão que são. Mas se mudar de ideia, mudam também.

Se ele disser que o sigilo de 100 anos é um absurdo, ficarão indignados. Mas se o governo recorrer ao mesmo mecanismo, encontrarão motivos para justificá-lo: “veja bem…”

Esquerda e direita viraram apenas palavras para manutenção de poder. Um lado depende do outro. Isso fica provado quando os terceiros lugares nas últimas eleições presidenciais vêm caindo exponencialmente em porcentagem de votos.

Toda vez que uma discussão política começa a usar esses termos, perco o interesse. Para mim, o certo é o certo, não importa se é canhoto ou destro. E essa conversinha furada me dá enjoo.

Mas acho que só agora entendi o que sou. Uusando os enquadramentos populares, para que fique claro a todos: não sou esquerdista, nem direitista, nem isentão e nem de centro. Sou independente. E ser independente talvez seja a pior estratégia.

Estou começando a achar que texto é só uma atitude desesperada de encontrar um rótulo para mim para sentir um calorzinho no coração, encontrar algum grupo que me abrige e comande inconscientemente minha ideologia.

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