Aprendemos a não guerrear

Entre 500 a.C. e 1500 d.C., guerras e conquistas mataram dezenas de milhões de pessoas num mundo que mal passava dos 500 milhões. Entre 1914 e 1945, em só 31 anos, morreram cerca de 100 milhões. Já nos quase 80 anos desde 1946, os conflitos armados somam algo entre 5 e 7 milhões de mortos. É o período menos letal da história humana.

Quando teorias sociais demonstraram que cooperação e empatia são estratégias mais eficientes que a força, a guerra passou a ser um erro sistêmico.

É natural que o nosso ser primitivo vibre instintivamente quando um déspota tirano é derrubado, mesmo que por outro déspota tirano. Mas é um sentimento visceral que deveríamos ponderar, não um raciocínio coerente e evolutivo.

A gente cresceu vendo filmes de Hollywood, como Rambo, que nada mais são do que conhecimento usado para criar uma imagem heróica imperialista de um país. Apesar de exacerbarem a guerra, podem até ter servido, de forma eficiente, para criar outro tipo de dominação: a intelectual ao invés da animal.

Apostar que o caminho do mundo é retornar milênios de evolução, e que a escalada de aprendizado que tivemos em conviver com nossas diferenças é algo a ser abandonado, me deixa um tanto perplexo.

Mais perplexo fico em ver pessoas acreditando que a tomada do país com as maiores reservas de petróleo é um socorro à democracia ou combate ao tráfico de drogas. Principalmente quando determinada por alguém sem escrúpulos que já provou que está unicamente pelos seus interesses financeiros disfarçados de um nacionalismo igualmente egoísta.

Intervir na soberania de um estado, sequestrar seu presidente — ainda que um ditador sanguinário — à revelia do Congresso americano, coloca o “Oompa Loompa” numa linhagem histórica marcada por crimes internacionais, ao lado de figuras como Napoleão, Hitler, Mussolini, Stalin, Saddam Hussein e Milošević — sem julgar estatura moral, mas a violação sistemática da ordem internacional em prol dos seus interesses.

POR QUE “1917” IRÁ GANHAR O OSCAR DE MELHOR FILME?

Nota do editor (posterior à premiação — leia no final, se preferir):

O vencedor foi “Parasita”. Pensando aqui o motivo da minha avaliação ter sido equivocada — aprendendo com os erros.

(1) A Academia está mudando. Muita gente nova,de vários países, foi convidada a ingressar. Isso aumentou a diversidade. É bom. Não tinha conhecimento disso até a transmissão da cerimônia.

(2) Existe um critério que não entendi bem como é, mas é algo como: se um filme figura em muitas categorias como segundo lugar isso pontua também e conta pra categoria de melhor filme, que é, resumidamente, uma coletânea de qualidades encontradas nas demais categorias.

(3) Mas o mais preponderante é que posso ter subestimado o fato da história de 1917 ser simples demais. Não estou falando de roteiro. Roteiro é uma coisa, argumento de história é outra. O roteiro de 1917 é demais, mas a história pode não ter sido suficiente para elevar ele no julgamento dos profissionais votantes e ganhar melhor filme. É como uma música: a boa mesmo é a que você consegue assobiar. Como você contaria a história de 1917? “O cara tinha que entregar um bilhete pra salvar 1600 vidas e se mete em muitas confusões pelo caminho.” Não acontece muita coisa além disso que seja contável. É difícil “assobiar” 1917.

Meu filme preferido é “Era Uma Vez em… Hollywood”. Fiquei chateado que ganhou pouca coisa. Tarantino merece um reconhecimento maior. Mas é aquilo: muito filme bom! Isso é o mais importante.


Não recordo de um Oscar ter tantos filmes bons como o deste ano. Eu não assisti “História de Um Casamento” e “Adoráveis Mulheres”, apenas. Estamos em uma boa safra. Existem vários filmes capazes de levar o prêmio. Mas aqui vou dizer por que acho que “1917”, de Sam Mendes, vence a parada. A maioria dos motivos tratam de inovação sobre um tema bastante usado — a guerra.

  1. Você lembra de algum título sobre a primeira grande guerra?
  2. Quantos filmes de guerra você lembra que se concentram em apenas um personagem? Geralmente, mostram batalhões ou missões de soldados, muitos combates… Aqui é a vida de uma pessoa, sua missão e obstinação em completá-la. Sabe quando recebemos a notícia de um acidente de avião ou massacre real em que há muitas mortes? A gente se estremece, claro. Mas o impacto é muito maior quando a tragédia é personalizada em uma pessoa ou uma família, e quando nos contam a história dela a ponto de nos envolvermos mais. Este filme não se detém do personagem, mas o próprio desenrolar se encarrega de nos apresentar aquele soldado.
  3. Quantas histórias são tão simples quanto “leve esta mensagem para impedir uma emboscada”? E não só, mas o roteiro não se afasta disso, nunca. Toda vez que surge um assunto periférico eles puxam de volta ao mote principal.
  4. A imersão causada pela condução em plano sequência e, principalmente, quase como uma câmera subjetiva, que acompanha o personagem, é extremamente envolvente. Ela nos coloca dentro da película, no mesmo ambiente, com os mesmos sentimentos de Schofield. Parece um game de guerra, em primeira pessoa, e isso cativa até os expectadores mais novos, coisa rara em um filme passado há 100 anos.
  5. É tecnicamente impecável, seja na fotografia, da direção de atores, na produção, no som, nos efeitos mecânicos e eletrônicos, na edição (que apesar de pouca, é essencial no filme)…
  6. “Era Uma Vez em… Hollywood” é excelente! Incrível! O melhor de Tarantino pra mim. Mas não é um filme unânime. Tem as estranhezas do diretor, o que não é o padrão da Academia.
  7. “Coringa” é sensacional. Mas a tradição dos filmes de super-herói (ou de vilão) não é de ser reconhecido a esse ponto pelo Oscar. Ele vai ficar com melhor ator e algum outro prêmio, certo. Se fosse ganhar seria mais para reconhecer o que os filmes de super-heróis têm feito pelo cinema na última década. Mas nesse caso, seria concedido à Marvel e não à DC.
  8. “Parasita” é muito bom. Rompe com o cinema tradicional. Nos traz uma linguagem diferente, surpreende… Mas… Está também concorrendo como Melhor Filme Estrangeiro. Deve levar por lá.
  9. “Ford vs Ferrari” é bem bom. Mas não tem “corrida” pra tanto.
  10. “Jojo Rabbit” é bem legal. Se tivesse que enquadrar ele em algum padrão, estaria próximo de “A Vida É Bela”. Mas concorrendo com outro filme de guerra, cheio de qualidades como mencionei, a Academia não repetiria o estilo de prêmio concedido a Benigni.
  11. “O Irlandês” é Netfilx. Ainda não está na hora de valorizar um filme de uma plataforma que, como Spielberg disse, “não é cinema”. Na real, eu achei chato pra caralho.
  12. Não é um filme politico, apesar de tratar de uma guerra. Parasita, Jojo, Coringa são; têm aquele viés questionador ideológico. Não que isso seja ruim, mas estamos em uma momento histórico mundial bastante polarizado e “1917” surge para que a gente respire, como um alívio, e deixe as armas ideológicas de lado para entrar na história pura e simples de uma pessoa, aliás, da missão de uma pessoa (mais simples ainda). A gente tá precisando de um pouco de paz e a ironia é um filme de guerra ser a resposta pra isso.

É isso! Vai minha torcida para “1917”!