Use o Assento para Flutuar

Dizem que as normas de segurança das aeronaves, presentes nos folhetos e explanadas pelos comissários de bordo, servem apenas para dar uma sensação de segurança; de que há um plano B em caso de acidente. As chances de sobrevivência por queda são algo entre zero e deus-me-livre. Mesmo assim, tenho uma sugestão sobre a mensagem “em caso de pouso na água, use o assento de sua poltrona para flutuar”.

Creio que lembrar a possibilidade de pouso n’água não transmite tranquilidade a ninguém. O melhor seria não falar da hipótese, apenas na possível solução, como “use o assento da poltrona para flutuar”. Porém, essa construção também não é a ideal.
Imagine a situação: aconteceu o tal pouso no mar, o avião não se dilacerou, não afundou, os passageiros não ficaram presos na cabine para morrerem afogados, você não bateu com a cabeça nem desmaiou, a saída de emergência conseguiu ser aberta e seu trajeto até ela não ficou obstruído por gente morta ou bagagens de mão. Você está na porta do avião, a água está numa temperatura caribenha e você vai encarar o mergulho quando lembra da mensagem. Você começa, então, desesperadamente, a procurar por um assento para “flutuar”. Passa um pedaço de isopor boiando, mas a mensagem era específica — “use o assento da poltrona para flutuar” — e você não aproveita a oportunidade. Passa um pedaço de madeira, um espaguete de hidroginástica, uma jangada de náufrago… Mas você está focado no assento. Foi a ordem do mantra repetido pela aeromoça, pelo encosto a sua frente e pelo folheto de instruções.
Minha sugestão é que a formulação da frase seja apenas “Lembre-se: o assento de sua poltrona flutua.” Assim, não se fala de acidente (“isola”) e nem se restringe sua possibilidade de não afogamento a um assento de poltrona. Mas como todos ficariam se questionando o motivo da afirmação solta, talvez seja necessário um complemento que explique (mas não tanto), como: “Lembre-se: o assento de sua poltrona flutua. Vai que…”

Diálogo Esquizofrênico

— Oi. Tá boa?
— Tudo bem, querida?
— Viu aquele treco do Vilmar?
— Guria… Sabe que eu não…
— Nunca imaginei uma…
— … acreditei naquilo. Porque ele…
— … coisa dessas. Ele era mais…
— … parecia tão, tão…
— … novo que o Oscar. Mas estudaram…
— … feliz. E depois, aquela coisa toda da mulher dele que…
— … juntos quando ele rodou de ano, lá no Colégio São…
— … passou por tudo aquilo. Isso tudo me dá…
— … Francisco de Assis.
— … muita pena. Muita pena dos filhos…
— É. Muita pena mesmo.
— Então tá, tchau.
— Bom falar contigo. Beijo.
— Beijo.

Tem gente que conversa assim. Vai entender…

Dicas Preciosas Sobre a Disneyland Paris

Em 2012, escrevi um artigo sobre a Disneyland Paris (leia aqui), que é um dos mais acessados do blog. Por isso, como estive lá agora (quatro anos depois), resolvi ratificar alguns itens com informações que mudaram de lá para cá ou precisam de complemento.

• Como aproveitar o tempo na Disney?
Aqui eu havia falado sobre o fast pass, que dá acesso sem filas aos brinquedos. Descobri que você não pode pegar mais de um fast pass de cada vez. Ou seja, você não pode ficar em duas filas ao mesmo tempo, mesmo que elas sejam virtuais. O sistema do parque identifica que você já tem um brinquedo agendado com fast pass e não deixa pegar o de outro até expirar o prazo de entrada do primeiro.

• Quanto custa e como comprar os ingressos para a Eurodisney?
Aqui eu havia falado do ticket Francillien, disponível no site da Fnac. Pois não sei se ele ainda existe. Comprei desta vez, no site da própria Disneyland Paris, o ticket MINI 1 day/2 parks, que custou €62 para adultos e €55 para crianças. A partir de 12 anos seu bebê crescidinho já é um adulto para eles. Esse ticket dá acesso ao parque em qualquer dia de semana (mediante consulta em um calendário que eles disponibilizam — alguns dias estão bloqueados para esse ticket, como feriados e tal. Em algumas épocas do ano, esse mesmo ticket fica mais barato ainda e é chamado de Special MINI 1 day/2 parks: €47 para adultos e €40 para crianças.

• Como eu chego à Eurodisney?
Esqueça praticamente tudo que escrevi neste item. A RATP (companhia de transportes local) expandiu a abrangência do passe de transporte público integrado. Antes, com um ticket, você só podia transitar na zona 1 e 2 de Paris. Agora, pode ir até a 5! Ou seja, Marne-la-Vallée, onde ficam os parques da Disney, está dentro da área de cobertura. Você gasta apenas €1,90. Vá de metrô até uma estação da linha 2 do RER e siga para seu destino com esse trem.

É isso. Espero que tenha uma boa jornada!

Internet no Celular em Paris

Senado francês, celular
Menina tirando foto com o celular no Senado francês, Senat.

 

 

 

 

 

 

 

 

Se você pretende viajar e quer ter internet no celular em Paris, encontrei em janeiro de 2017 a melhor opção.

Em 2012, havia estado na cidade e consegui um plano da Orange, com internet ilimitada, por um total de 19,90€ (veja aqui). Era um pré-pago com validade de um mês. Perfeito para minha necessidade na ocasião e atualmente. Porém, este plano não existe mais. Nem mesmo existe plano algum de 3G/4G ilimitado, o que é um saco, pois ninguém quer ficar controlando o que consome de banda, muito menos ficar sem internet quando mais precisar.

Pois desta vez, pesquisando por todas as operadoras de celular disponíveis em Paris, me deparei com a Free. Trata-se de uma empresa de telefonia fixa, internet e TV a cabo que, parece, ingressou há pouco com planos de móvel. Como falei eles não têm também opção de dados ilimitados, mas há uma que você só vai conseguir acabar com a franquia se ficar assistindo Netflix durante toda sua viagem. O que eu acho que não tem como acontecer com ninguém que visitar Paris. Tratam-se de absurdos 50Gb de transferência por mês! Se você também precisa de outras formas de comunicação, como voz e SMS, esse plano oferece ligações ilimitadas para as regiões metropolitanas da França, SMS ilimitados para toda Europa e chamadas também ilimitadas para outros 100 locais fixos.

O valor é 19,99€ mais o cartão (chip ou SIM card, como você preferir chamar) que, creio, você ainda não possui, de 10€. São 29,99€ para um mês. Não é uma bagatela, mas é o melhor que achei.

Para adquirir é muito fácil. Basta você ir a uma loja da Free. Li na Internet que havia duas, mas só encontrei uma. O endereço é 8 Rue de la Ville-l’Évêque, próximo à praça da Concórdia. Todo processo é feito por um terminal de autoatendimento. Você precisa optar pelo plano (basta ficar de olho nos “50Gb” — não confunda com os “50Mb” do outro plano — e no preço: “19,99€”). O passo a passo do sistema irá lhe conduzir e perguntar se deseja o plano por apenas um mês ou continuamente. Lembre-se que essa informação é importante, pois o plano não é pré-pago, mas de conta. Optando por apenas um mês, ele será cancelado após esse prazo. Será solicitado seu email, nome e endereço em Paris. Serve o do hotel. Eles não o irão usar para nada. Nenhum documento é exigido. Irá perguntar também o formato do seu cartão, se mini ou nano, e lhe cobrar mais 10€ pelo chip. Atente a isso ou não vai encaixar no seu smartphone. Você paga com cartão de crédito e pronto, a máquina cospe seu chip. Se o modelo do seu telefone precisa de um alfinete para retirar o SIM card, peça a um atendente para lhe ajudar pois ele tem a ferramenta. Voilá! Saia usando imediatamente. Sempre que desligar e ligar seu telefone, será lhe solicitado o código PIN do cartão. Parece que é padrão o “1234”. Está escrito na embalagem que você recebeu.

Se ligue quando abrir seu Whatsapp. Ele perguntará (sempre acontece quando você troca de chip) se deseja mudar o seu número padrão para seu perfil no aplicativo. Se você pretende usar apenas provisoriamente seu número francês, não mude! Ou vai bagunçar a sua vida e seus contatos do “zap-zap”.
Como, acredito, todas as empresas de telefonia móvel de Paris, a Free Mobile tem redes wi-fi espalhadas pela cidade que irão conectar automaticamente no seu celular sempre que estiverem próximas para poupar os dados do seu plano. Pessoalmente, em todas as experiências que tive com elas, não valia a pena. Ou não funcionavam direito ou eram mais lentas que o 3G/4G da região. Desligue o wi-fi se isso ficar atrapalhando. A cobertura da rede 3G/4G é ótima e só funciona com deficiência no metrô, por exemplo. No geral, é bem melhor que no Brasil.
É bom ficar atento também se seu aparelho celular é compatível com o sistema de telefonia da França. Os iPhones brasileiros, a partir do 5S, tenho certeza que são.

É isso! Espero ter ajudado e bon voyage!

Relacionamento de Marido e Mulher — Parte 1

O Lucas, que trabalha aqui na empresa, trouxe para vender uns donuts que fez com a namorada. Quando cheguei do almoço só havia sobrado um. Comprei, vislumbrando meu café da tarde, lá pelas 16h. Tirei da cozinha e trouxe para trás da minha mesa, a fim de não correr riscos desnecessários. Meia hora depois, minha mulher, esfomeada, chega, olha e diz: “nossa, que coisa linda, de quem é isso?”.

Qual é a melhor resposta?

a. É um troço que o Lucas trouxe.
b. Não toca. É meu.
c. Era pra meu café, mas pode pegar um pedaço.
d. Comprei pra ti, amor.

Óbvio que a letra D. Não foi a que dei, mas estou aprendendo.

Como criar Pokéstops no Pokémon Go

pokéstop

A febre do Pokémon Go chegou no Brasil e, como em qualquer outro local do mundo, todos os estabelecimentos estão se perguntando como criar Pokéstops. Afinal, todos desejam ter seus espaços comerciais invadidos por pessoas malucas caçando pokémons, pegando itens nos Pokéstops ou batalhando em um Gym. Todos querem que eles permaneçam por mais tempo, consumam mais seus produtos e, claro, valorizem mais a marca da empresa. A Niantic (criadora do jogo) mantinha um página em seu site onde era possível enviar sugestões de localização para novos pontos PokéStops ou Gyms. Porém, o número de requisições foi tão grande que ela desativou a possibilidade de envio.

Mas uma dica que pode dar certo é através do game Ingress. Ingress é o antecessor do Pokémom Go, também desenvolvido pela Niantic e, apesar do tema ter mais a ver com espionagem, possui as mesmas tecnologia e dinâmica de jogar, através da realidade aumentada. No Ingress o jogador pode criar portais. O Pokémon Go não aproveitou apenas os mapas do Ingress, mas os PokéStops, na verdade, estão nas mesmas posições dos portais do Ingress. Isso explica o fato de muitos PokéStops não estarem em locais de grande circulação de pessoas.

Então, até que a Niantic reative seu formulário de requisição de PokéStops ou reveja sua política de criação dos mesmos, não custa baixar o Ingress, aprender a jogar e criar o seu portal. Vá que em alguns dias ele vire um PokéStop no Pokémon Go!

A Nova Era do Sei-lá-o-quê

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Então, o mercado está esquisito. A crise não é apenas econômica. A crise é de perspectiva de futuro do padrão vigente (já nem mais tão vigente assim). Mas o problema não é só se o mundo como conhecemos vai ou não deixar de existir: é que ninguém sabe para onde ele vai! Há pistas, mas são nebulosas. Ninguém tem mais certeza de nada.

Primeiro era assim: você produzia algo e colocava no mercado. Se as pessoas gostassem, compravam. Você fazia um pouco de publicidade, para apresentar seu produto a quem não o conhecesse, e aumentava seu horizonte de vendas. Algum tempo depois, passou-se a embalá-lo em um papel de presente “mais bonito”, ampliando a percepção de seu valor. A estratégia começou a ficar mais rebuscada, ardilosa, psicologicamente questionável. Era preciso criar imagens de produtos, nem sempre verdadeiras.

A concorrência começou a estabelecer níveis de qualidade (ou de percepção de qualidade) altíssimos — “quem não tem qualidade, não tem mercado”. Não bastava mais vender um sanduíche bom, você precisava oferecer um serviço bom, um ambiente bom, itens conexos bons, uma experiência de compra mais que boa — incrível! Até que chegou a Internet. O consumidor começou a ter voz e as marcas começaram a perceber que os consumidores eram pessoas. Sim! Se deram conta disso! Mas sabe como as pessoas são complexas, não? Pessoas são solitárias ou têm muitos amigos, são tristes ou são felizes — estão tristes ou estão felizes! —, são burras ou são inteligentes, estão com tempo ou estão sem tempo, gostam de amarelo ou odeiam amarelo; são complexas ou são complexas! Como atender a todos? Ao mesmo tempo, os consumidores começaram a exigir que as marcas também fossem pessoas. Tirando, claro, a parte da esquizofrenia.

Então, surgiram as mídias sociais e as pessoas-consumidores começaram a exigir que as marcas-pessoas conversassem com elas. Aí, somou-se, à qualidade, à experiência e à esquizofrenia, a transparência. Se você não for sincero, você está morto. Isso é bom, claro. Deveria ter sido sempre assim. Mas nunca foi. Talvez esta seja a única certeza que podemos assumir.

Paralelo ao crescimento dessas exigências cada vez maiores sobre as empresas, vêm as das pessoas sobre elas mesmas. Você quer dar ao seu filho tudo que você não teve. Você não admite que ele não estude inglês, não exercite uma atividade artística, não pratique um esporte. Seu filho não pode sair na rua sozinho porque as coisas não são mais como eram na sua época, e você, então, contrata seguro para o seu carro e para sua casa, plano de saúde porque o SUS não dá conta, uma escola particular, uma faculdade das boas, o melhor serviço de buffet para a formatura, com direito a banda, photo booth, whisky, cerveja, vinho, barman com drinks, DJ, sushiman, equipe de fotógrafos e, quando seu filho casar, é bom nem pensar, pois vai ser ainda pior. Cadê as festas de aniversário só com cachorrinho, guaraná e bolo? Não. Isso não é mais admissível.

Se você cobra isso tudo de você mesmo, o que exigirá das empresas e marcas que consome? Você quer mais, mais e mais! Mas tudo isso tem um preço. E você não quer pagar estra conta. Esse custo não pode mais ser tirado da qualidade, da matéria-prima, dos funcionários, da sede, do transporte, dos analistas de mídias sociais, do cara do marketing, da TI, do programa de formação e atualização dos colaboradores, da mesa de ping-pong, do videogame, da festa de final de ano e da supermáquina de café — afinal, os colaboradores precisam se sentir bem para produzirem. De onde tirar?

Neste ritmo, só sobrevivem os produtos de grande escala; de escala mundial. Como ser inovador no mercado local? Como competir? Dá, com inovação. Mas logo alguém vai industrializar a sua ideia de produto ou serviço e torná-la mundial, através de uma fonte de recursos etérea, provinda de uma “nuvem” de investidores que irão exigir resultados.

Dizem que a revolução está só começando, pois ainda estão para aparecer os grandes concorrentes dos líderes mundiais e aí eles vão precisar de novo de “publicidade”! Mas pense: o mundo não tem espaço para dois Facebooks, dois Übers, dois Googles, dois Twitters, dois Instagrams, dois WhatsApps! Todo mundo quer estar onde os demais também estão. Um sempre vem e mata o outro. Se o objeto não for levemente diferente, um sucumbe para que o outro viva. São os novos tempos, onde todos devemos ser um só.

O mundo está ensaiando uma unificação filosófica, econômica, social… É certamente prematura, apesar de toda tentativa ser sempre válida e cheia de aprendizado. Certamente, ainda não estamos prontos. Precisamos antes de uma elevação espiritual, como seres humanos. Ela pressupõe enxergar o mundo com outros olhos, outra ciência, outra matemática, outro modelo de criação e aculturação. Estamos longe disso. Por enquanto, ficamos dando cabeçadas na parede e chilique nas mídias sociais. É a nova era do sei-lá-o-quê.

Salário máximo. Que tal?

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A instituição salário mínimo é comemorada até hoje como uma vitória da classe trabalhadora. Evidente sua importância, claro. Porém, tenho uma teoria (não sei se é só minha, pois sou ignorante no assunto) de que tão necessário quanto, seria convencionar também um teto de rendimentos, inclusive para empresários — um salário máximo. Não pense que não sou a favor da meritocracia e que sou contra os incentivos à maior capacidade produtiva. Não é isso. Mas quem precisa de seis milhões de EUROS por mês como o jogador de futebol argentino Lionel Messi? O que a pessoa faz com tudo isso? Imagino que nem se tentasse, com todo emprenho, não conseguiria gastar tanto. Bill Gates é um cara do bem. Com a fortuna que tem, talvez qualquer um de nós também fosse. Mas o dono da Microsoft já doou metade da sua fortuna bilionária para caridade e, pasmem, já acumulou tudo de novo!

Pode parecer ingenuidade, mas não é.

A questão do salário máximo não diz respeito apenas a quanto alguém consegue ou não gastar mensalmente. Ela é sobre uma melhor distribuição, não só de renda, mas de oportunidades. Pensem em um empresário cheio de mérito, que empregue centenas de pessoas, que comande uma companhia superavitária. Ao final do ano, nada mais justo do que receber o retorno (lucro) sobre o esforço que seu negócio fez. Em alguns casos, esse montante será tanto que esbarrará no caso exemplificado das grandes estrelas do futebol. Mesmo que tente, não dará vencimento na sua fortuna; acumulará recursos suficientes para viver 100 vidas, incluindo a de seus herdeiros. Convenhamos que ninguém precisa de tanto.

Quando falo em salário máximo, ou rendimento máximo, também não me refiro a pouca coisa. Não vejo problema em ser generoso com o esforço e trabalho das pessoas. Não cairei na armadilha de valorar quanto seria, mas vislumbremos um teto na casa das centenas de milhares de reais. Um profissional bem sucedido — muito bem sucedido (muito mesmo!) — poderia ter suas retiradas de resultados da empresa limitadas por esse rendimento máximo. Assim, o restante da lucratividade da companhia não viraria apenas dinheiro no bolso de alguns, mas reinvestimento no próprio negócio, ampliação fabril, conquista de mercado, injeção em inovação, mais qualidade de vida e de trabalho aos colaboradores, enfim, fazer a roda girar. E se, a retroalimentação for tão eficiente assim, criará um círculo virtuoso que exigirá a doação de recursos, como optou o tio Bill.

Tá aí a tal da utopia de novo.

A Ira de Dona Neide

É difícil um padre jovem durar mais do que três ou quatro anos na mesma comunidade. Não sei por quê. Onde Seu João e Dona Neide vivem não é diferente. Casados há mais de 60 anos (ambos já estão quase nos 90), são extremamente ativos. Moram há 12 no mesmo lugar e já viram três sacerdotes assumirem a igreja que frequentam. O anterior acabou se juntando com uma fiel quarentona, formosa e endinheirada — “Ah, o amor! Esse sentimento lindo capaz de tirar um homem de Deus do seu caminho!” Uma verdadeira decepção para Dona Neide, que confiava cegamente naquele homem. Seu João apenas balbuciou: “É… fazer o quê?” Mas as coisas sempre podem melhorar. Depositam agora toda a fé e confiança no novo substituto e discípulo do Senhor, o Padre Marcos.

Criados com os fortes hábitos religiosos da primeira metade do século XX, quando a missa era em latim e nem sabiam o que entoavam, Seu João e Dona Neide são hoje uma espécie de resistência católica. A juventude não dá mais bola para igreja e, quando faz, costuma pender para o lado evangélico. Quando não podem ir ao culto por algum problema de saúde, o padre vai à casa do casal; atende a domicílio. Digamos, “benção delivery” — é, a igreja tem que se reinventar. Ele dá a comunhão e, claro, aproveita para filar um café da manhã lá pelas 10h, porque ninguém é de ferro. Isso acaba atrasando o almoço, servido costumeira e pontualmente sempre às 11h30. Mas para Seu João, a presença do Padre é mais importante que o horário da refeição e que os remédios que precisam tomar antes de comer. Padre Marcos é o símbolo máximo da devoção que têm a Deus. Não dão tanta bola assim nem para o Papa — “ainda mais agora que parece que é um argentino, vê se pode”.

Todos sabem da dificuldade que um sacerdote enfrenta em uma nova comunidade. Seu João e Dona Neide mais ainda. Além de, geralmente, estar em “início de carreira”, recebe do anterior a paróquia na pindaíba, tanto financeiramente quanto em número de fiéis descrentes. O trabalho é dobrado e o dízimo escasso. Esses cafés da manhã e almoços nas casas das famílias locais acabam sendo divinamente providenciais. Não é só pelo alimento que nutre o corpo nem pela companhia que revigora o espírito, mas é o momento em que o pároco pode chorar suas mazelas aos velhinhos devotos e conquistar um pouco de sua compaixão. Já imaginaram um padre, sozinho em uma nova cidade, sem ter uma máquina de lavar roupas? Dona Neide chega a suspirar de pena — houve épocas da vida em que teve duas simultâneas, para dar conta do serviço! Mas Seu João não deixou por menos e deu ao Padre Marcos a bendita máquina de lavar. Agora, sim, ele pode dedicar-se mais à pregação da Palavra e está sempre limpinho, cheiroso e bem apresentável. Seu João também já presenteou-o com um forno de micro-ondas, não para a paróquia, mas para seu uso pessoal. Alguns boletos vencidos em nome da igreja também foram pagos por Seu João e, por vezes, um filho interceptava ligações de cobrança de dízimos para a casa do casal. A família, desconfiada de tamanha gastança, se pôs a investigar. “Mas é tudo em nome de Deus”, alegou Dona Neide.

Um dia, padre Marcos resolveu marcar uma janta. Na casa do casal, claro. Certamente traria um vinho, de missa, para ser gentil. O casal preparou sua melhor receita, colocou à mesa sua melhor louça — aquela que só padre merece. Dona Neide fez seu sagu supremo, elogiado por toda família. Não foi trabalho simples: ela precisa de andador para se locomover com um pouco de autonomia. Estava marcado para às 18h30. Já eram 19h30 e nada do Padre Marcos aparecer. A filha, de passagem, se deparou com aquela mesa linda, como não havia visto nem no batizado da neta mais nova, e questionou. “É que o Padre vem jantar, mas está um pouco atrasado.” Já eram 20h.

— Vocês não vão ligar pra ele?
— Calma, filha. Se disse que vem, ele vem.

Lá pelas 21h30, o sono batia. Resolveram telefonar. O Padre estava em Brasília, provavelmente com o Bispo. Havia esquecido o compromisso na capital e, coitado, não conseguira avisar os anciãos. Vossa Excelência Reverendíssima merece todo respeito e consideração. Pena que não sobrou um pouco para Seu João e Dona Neide.

Duas semanas depois, repetiu-se a mesma cena com um almoço agendado. Os filhos, já sabendo das histórias, não pouparam críticas ao comportamento ingênuo dos pais. Inclusive, em uma missa delivery, para a qual toda a família estava convidada, nenhum apareceu nem para agradar os dois, tamanha a restrição que estavam nutrindo pelo agente de Deus.

Dona Neide — como se ela é que devesse desculpas a Padre Marcos — ordenou ao marido que a ajudasse a preparar uma quantidade enorme de cueca-virada, de modo a encher um pote plástico, dos grandes. A palavra dela é uma ordem para Seu João, mesmo quando está cansado. Depois de uma tarde inteira preparando o doce regalo, foram à igreja. Após o culto, com um sorriso no rosto, entregaram ao pastor. Ele não se fez de rogado e comeu duas ali mesmo, sujando o hábito de canela em pó e agradecendo de boca cheia.

Mas mal sabia Dona Neide que logo, logo, Padre Marcos viria a ser seu maior desafeto. Não foi a exploração do dízimo exorbitante nem foram os presentes que aceitou em benefício próprio, também não foi o almoço nem o jantar nos quais simplesmente não apareceu. O que de fato fez Dona Neide lançar ao Padre toda sua ira e decepção teve a ver com as cuecas-viradas: ele nunca devolveu o tupperware vazio. E era dos grandes.

Meus problemas com o cartão Dotz Mastercard

Você já conhece este diálogo, ao entregar o cartão para o caixa:

— Crédito.
(…)
— Crédito ou débito?
— Crédito!
(…)
— Débito?
— Crédito!

Mas a parte que você só conhece se tiver um cartão Dotz Mastercard Ibicard é a “moça do caixa”, ao pegá-lo, olhar para seu canto arredondado, esfregar o dedo de um lado para o outro e dizer “Nossa, que diferente! Foi tu que cortou ou já veio assim?”

Se fosse só isso, ok. Mas o problema vem sendo maior.

Há uns 10 anos, me ligaram para oferecer um cartão Dotz Mastercard. Meu primeiro impulso foi negar, pois eu já tinha um Visa. Mas, diante dos benefícios do pano de milhagem Dotz, e da versatilidade em ter cartões de duas bandeiras diferentes, resolvi aceitar. É realmente vantajoso esse programa. Você ganha pontos nao só quando paga a fatura, mas também comprando em várias lojas da Internet, como Americanas, Submarino, Fnac, Shoptime, Ricardo Eletro. Dependendo da promoção atual, você acumula até quatro pontos por real gasto. Com isso, já consegui resgatar um iPad, um no-break, uma caixa de som bluetooth iBlu superboa, um bluray player etc.

O que acontece é que o Banco Ibi, emissor original do cartão, foi comprado pelo Bradesco há uns dois anos, creio. De um tempo para cá, estou convicto que o novo banco está tentando dissuadir seus cientes a continuarem com o contrato, devido aos benefícios fora do comum que o programa Dotz oferece. Explico:

  • toda semana, ao abastecer nos mesmos postos de gasolina de sempre, meu cartão não passa e é bloqueado;
  • sempre quando tento comprar passagens aéreas também;
  • perco mais de meia hora com o atendimento para conseguir desbloquear;
  • cada vez que ligo, a quantidade e dificuldade das perguntas de segurança, do tipo nome da mãe, se eu tenho cartão adicional, aumentam. Na última vez respondi tudo certo e disseram que os dados eram inconsistentes e mandaram ligar de novo para reiniciar o processo — é um inferno recomeçar o processo!
  • os atendentes são presunçosos e grosseiros (claro, quando eu, irritado, os trato assim também — kkkk);
  • quando questiono o motivo do bloqueio, me alegam “motivos de segurança”, mas quando pergunto “Quais motivos de segurança? O estabelecimento não é confiável? Minha compra saiu do padrão?” eles não sabem responder.

Ontem, me ligaram dizendo que meu cartão tinha efetuado cinco compras em valores como 2 mil, mil reais, fisicamente, em estabelecimentos nas cidades de Niterói e São Gonçalo e queriam saber se eu reconhecia tais despesas. Falei que não, que estava em Pelotas, de posse do meu cartão. Eu disse que as cidades das compras eram no Rio de Janeiro e eu estava no Rio Grande do Sul. A atendente insistia em dizer que as cidades eram todas no Rio Grande do Sul. Mas, enfim, bloquearam definitivamente meu cartão, entraram com processo de cancelamento das despesas não reconhecidas e ficaram de me mandar um novo cartão, agora, com chip. Sim, meu cartão Dotz Mastercard Bradescard não tinha chip!

 

Tudo bem que fraudes existem. É mais comum do que parece, mas eu já vinha desconfiando há tempos que estavam tentando fazer eu desistir do cartão. Agora estou acreditando ainda mais nisso. Não vão me fazer desistir dos benefícios do Dotz! Eu sou brasileiro e não desisto nunca! :)