Relacionamento de Marido e Mulher — Parte 1

O Lucas, que trabalha aqui na empresa, trouxe para vender uns donuts que fez com a namorada. Quando cheguei do almoço só havia sobrado um. Comprei, vislumbrando meu café da tarde, lá pelas 16h. Tirei da cozinha e trouxe para trás da minha mesa, a fim de não correr riscos desnecessários. Meia hora depois, minha mulher, esfomeada, chega, olha e diz: “nossa, que coisa linda, de quem é isso?”.

Qual é a melhor resposta?

a. É um troço que o Lucas trouxe.
b. Não toca. É meu.
c. Era pra meu café, mas pode pegar um pedaço.
d. Comprei pra ti, amor.

Óbvio que a letra D. Não foi a que dei, mas estou aprendendo.

Hoje eu vi…

Hoje eu vi um adolescente querendo ajudar a qualquer custo. Eu vi um velho sem saber bem o que fazer, mas procurando ser parte. Eu vi uma mulher rica, bonita e delicada subindo em árvore e sendo a mais envolvida. Hoje eu vi uma criança pobre tendo uma experiência que levará para toda vida, que ajudará a formar seu caráter, sua personalidade. Eu vi outra mais privilegiada se divertindo como nunca junto com as da comunidade. Eu vi um cara com toda pinta de marginal provando para mim — e para si mesmo! — que as coisas podem ser diferentes. Eu vi uma menina linda, com as roupas sujas, ser mais valente que muito marmanjo. Hoje eu vi um homem de posses, que poderia estar em casa com sua família, agarrado numa enxada para construir o sonho de muita gente. Eu vi um rosto cheio de lágrimas por não acreditar no que presenciava. Eu vi uma senhora da comunidade perceber o valor do que estava sendo feito, e trabalhando não só para que sua filha tivesse o exemplo, mas para o futuro de todas as crianças. Hoje eu vi um lugar antes vazio e inóspito encher de moradores tomando chimarrão e conversando. Eu vi as crianças girarem em pneus pendurados em árvores tão felizes como nunca presenciei. Eu vi abraços, agradecimentos, olhos brilhando. Eu vi incrédulos presenciarem a materialização de um sonho brotar do chão diante de seus olhos. Hoje eu vi um gordinho de 13 anos pegar no pesado e ser o mais motivado de todos. Eu vi areia e barro virar uma praça. Eu vi um sonho nascer, sendo construído pela mobilização de pessoas. Somente pessoas.

Hoje, vi coisas que não costumo ver.

Hoje foi um dia muito, mas muito especial.

10 Anos de Blog

velasEu não tinha a mínima ideia da data, mas esta semana pensei que deveria fazer um post quando o blog estivesse completando 10 anos. Não sabia se já tinha passado, se seria no ano que vem… Resolvi olhar. O primeiro post foi dia 17 de julho de 2005. Então, ainda dentro do mês, o post comemorativo é válido :). Ele mudou de servidor e de endereço, mas quando o fiz, resgatei os artigos do antigo.

Este site é um apanhado das coisas que penso, dos textos que escrevo. Ele mostra a evolução (ou não) de minha escrita e pensamentos. Nada demais, mas é um registro. Eu não tenho estes textos em outro lugar. Deveria.

 

Ação entre Amigos

açaoTodo final de ano, na empresa, recebo ligação do Sargento Palhares da “Poliça” (troquei o nome da pessoa e da corporação para proteger inocentes — no caso, eu). Quando o telefone toca dizendo “Bom dia, aqui é o Sargento Palhares da “Poliça”, gostaria de falar com o Senhor Daniel”, a secretária já sabe que não é pra transferir. Só que este ano, depois de algumas despistadas e tentativas frustradas de me encontrar, a sagacidade do oficial falou mais alto. Apresentou-se só pelo primeiro nome: “Gostaria de falar com o Sr. Daniel. Aqui é o Marcelo”. No momento em que atendi e escutei o bom-dia da imponente voz acostumada a mover um batalhão, não tive dúvidas e esbravejei internamente: “Malditos! Conseguiram de novo!” Não que eu seja um fugitivo, tenha culpa no cartório ou na delegacia. A questão não é essa. Trata-se, apenas de um pressentimento que irei entrar pelo cano outra vez. Explico melhor:

— Daniel, bom dia!
— Bom dia. Quem fala?
— Aqui é o Sargento Palhares. Marcelo Palhares. Estou entrando em contato pois tenho um convite do Comandante Magalhães — (mudei o nome novamente).
— Pois não.
— Como o senhor sabe, estamos reformando nossa sede, ampliando a estrutura para melhor atender à comunidade. É uma obra que custará X mil reais. Já temos Y mil e precisamos finalizar. Como o senhor vem colaborando com a gente há alguns anos, estamos ligando mais um vez.
— Pois não. O que seria?
— Então… Estamos promovendo uma rifa de uma motocicleta. Cada cartela contém três números. São três chances de ganhar.

Essa parte do “três chances de ganhar” me soa particularmente engraçada.

— Quanto é?
— Então… O Comandante pediu para separar três cartelas para o senhor. Sendo assim, seriam nove chances de ganhar.
— Nove? Olha!
— Isso mesmo!
— Quanto é?
— Seriam, no caso, 200 reais.
— Não entendi o valor. Pode repetir?
— No caso, seriam 200 reais.
— As três cartelas?
— No caso, uma só. As três seriam 600 reais.
— Quanto?
— No caso, 600 reais, senhor.
— Olha… “No caso”, acho que posso contribuir com uma cartela só.
— Muito obrigado, senhor. Será muito útil para a corporação. Quando posso passar para receber?

Eu sempre achei que rifa fosse ilegal. Mas se é a polícia que está fazendo, já sei que não é. E, afinal, quem sou eu para não atender um pedido desse calibre?

E Se Eu Não Pensasse “E Se”?

E se eu reduzisse a quantidade de leite ao invés de aumentar o Toddy?
E se eu misturasse cacau em pó no Toddy para ficar menos doce?
E se eu usasse só cacau e colocasse açúcar?
E se eu fosse diminuindo o açúcar até o ponto de ficar quase ruim?
E se eu diminuísse mais um pouco o leite, para ficar mais doce?
E se eu bebesse o leite só de dois em dois dias?
E se eu tomasse só no fim de semana?
E se fosse só uma xícara, daquelas bem pequeninhas?

E se tomasse do jeito que eu gosto, na quantidade que eu gosto, e começasse a fazer exercícios pra valer?

E se eu não fizesse mais exercícios e diminuísse de novo a quantidade de leite ao invés de aumentar a de Toddy?

“Acertou em Cheio”. Acertei?

ACE-logoEstou em um momento especial.

Sempre tive ideias de projetos fora do meu escopo profissional e estava ficando meio doente de não conseguir (talvez nem tentar) colocá-las em prática. Algumas delas estavam passando do prazo de validade — via outras pessoas as lançando e eu perdendo oportunidades. Resolvi, então, partir para a ação. Reencontrei depois de anos o Amadeu, colega de colégio. Por coincidência, além do destino tê-lo levado profissionalmente para a publicidade, também compartilhava dessa mesma minha angústia.

Ao mesmo tempo, um ex-estagiário da Incomum, Wagner, com quem já tinha ensaiado fazer esse projeto antes, me procurou novamente com seu amigo, também conhecido no colégio, Matheus, com a mesma proposta. Achei legal juntar os quatro, cada um com suas habilidades e, enfim, bancarmos algo no risco. Nasceu a Tutano — uma empresa start-up (nome da moda, para negócios tecnológicos pretensamente promissores a espera de investidores milionários – kkk).

aec-tela2Devido à proximidade do Natal, o primeiro projeto lançado foi o Acertou em Cheio. Um aplicativo para Facebook que permite criar listas de presentes totalmente personalizadas e independentes dos sites de e-commerces. Ou seja, liberdade total para inserir o que quiser, de dentro ou fora do mundo online. O sistema aceita qualquer coisa: de produtos a sentimentos. Experimente pedir um abraço. Pode ser que você ganhe mais rápido do que imagina. A ideia é distinta de tudo que existe justamente por isso. E não precisa de data especial. A sua lista fica ali, eterna, até você ganhar o item e excluí-lo. Quando um amigo for lhe presentear, certamente vai “acertar em cheio”, ou, na pior das hipóteses, se inspirar no que você publicou e lhe dar algo relacionado. 15 dias antes dos aniversários de seus amigos que estão no aplicativo, você é avisado que eles têm lista. E vice-versa — seus amigos também recebem alertas sobre o seu aniversário e irão fuçar nos seus desejos, certamente. O que eu acho mais legal na ideia, não é nem o ato de presentear em si, mas de confeccionar e manter uma lista de coisas que você gosta e deseja ter. Ali ficam registradas sua personalidade, seus requintes, suas ideias, seus sentimentos, suas sinceridades e, até, criancices.

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Acertou em Cheio é o primeiro dos nossos projetos e, claro, em constantes melhorias. A partir de janeiro, já inciaremos o segundo. A quantidade de ideias é grande, pois agora não são só as minhas, mas as dos quatro.

Para conhecer o aplicativo, acesse a nossa fan page ou nosso site. Adoraria saber o que acharam.

O Acidente da TAM — Coincidências

ft_ac_TAM_3054_48[1]Nunca contei isso.

Em 2007, a aeronave que fazia o voo 3054, da TAM, que ia de Porto Alegre para São Paulo (Congonhas) sofreu um acidente na aterrissagem. O fato impactou o Brasil inteiro e, principalmente, o povo gaúcho, pois grande parte dos passageiros era daqui. No dia seguinte, os jornais traziam em página dupla, as fotos das vítimas. Assim como à maioria das pessoas, as notícias do evento me aterrorizaram e tive a atenção voltada para os jornais e telejornais. Felizmente, não conhecia ninguém a bordo. (“Felizmente” é ruim de dizer, porque não houve felicidade alguma, já que tanta gente estava infeliz naquele momento e perdendo gente tão próxima.)

Eu havia feito uma música com uma letra antiga do Jefferson, baterista da minha banda, Água de Melissa. Porém, ele achara que a composição não combinava com a letra. Inspirado por aquelas 199 fotos 3×4 que estampavam os veículos de comunicação do país e pela ironia do destino de ter sua vida resumida a uma legenda de fotografia em página dupla de jornal, resolvi escrever uns versos e substituir a letra anterior. Os fiz em primeira pessoa, sob a ótica de um passageiro. Decidi que a personagem seria uma mulher. Senti a necessidade de dar um nome a ela. Pensei em um qualquer, aleatório, que coubesse na métrica e rimasse com algum número que seria sua idade. Inventei “Maria Inês”, para rimar com “23”. Juro que não havia visto a lista de passageiros.

Há cerca de três anos, algum parafuso da minha cabeça soltou, ou prendeu, não sei. Lembrei da irresponsabilidade em ter escolhido um nome qualquer e não ter nunca verificado se realmente não havia passageiro homônimo. Fui para a internet e, pasmo, encontrei “Inês Maria Kleinowski”. Pesquisei mais a fundo, incrédulo, para encontrar a idade. Só faltava ser 23. Não era. Tratava-se de uma senhora de 49 anos. Fui atrás de parentes, pois pensei que a coincidência poderia ter algum valor para a família. Mandei e-mails para alguns com sobrenome igual, mais nunca obtive resposta.

A música se chama “Não Sou Eu (200 Fotos)” e pode ser ouvida no site da minha banda Água de Melissa ou aqui.

Fica aí, registrada, a curiosidade, seis anos depois.

Abaixo, a letra da música.

Não Sou Eu (200 Fotos)
(Cuca)

Esta da foto não sou eu
Nem sou o que me descreveu
Quem foi que veio me entrevistar
pra eu contar?

Eu não sou tinta de jornal
Em fonte bold, arial:
“Maria Inês, Porto Alegre, estudante, 23”

Só uma legenda
pra explicar minha vida inteira, vai caber?
Quem são as 200 fotos na página central?

Cadê o meu riso engraçado?
E meus poemas decorados?
O jeito que amarro o meu sapato?
Eu sou assim.

Só É Medíocre Quem se Acha Medíocre

media[1]Então, você tem uma ideia.

E ela parece ótima, genial. Mas você não consegue “vendê-la”. E acha que ela continua sendo genial, mas que é você não está sabendo utilizar argumentos eficientes para “vendê-la”. Você chega a ser presunçoso a ponto de pensar que seus “clientes” é que não tiveram a capacidade de compreensão; que você está acima deles. Acha que precisa de “clientes” de um nível mais alto. Aí, você alcança um “cliente” de um “nível mais alto”, mas seus problemas pioram. E você começa a concluir que a sua ideia genial, na verdade, é uma ideia de merda. Afinal, se o cliente-nível-mais-alto também não está comprando, é você, definitivamente, que está errado. Mas você se lança outra hipótese: se a sua ideia não parece medíocre para você, se ela está suprindo suas expectativas enquanto profissional, pessoa, gente, empreendedor, espírito, missionário, significa que está fazendo algo bom a você, algo que te faz bem, te deixa feliz e em paz consigo mesmo — sensação do dever cumprido; tudo que você quis na vida; o motivo de estar vivo. Porém, sem o respaldo da “venda”, da aceitação, você se frustra, não se retroalimenta, se acha ruim. Mas o que é ser ruim? Se você faz o seu melhor e o seu melhor lhe agrada, o que está faltando é encontrar alguém que “compre” a sua ideia e não a ache medíocre; que a valorize. Mesmo que esse alguém seja, teoricamente, “de um nível mais baixo” que suas expectativas. Se o melhor que você faz agrada a ele, se ele acha o seu melhor o melhor pra ele, vocês se acharam. Ele estará feliz e você estará feliz. Mas você deve se desligar totalmente da opinião dos outros “níveis” de pessoas que não compreendem suas ideias. Sejam elas pretensa e supostamente inferiores ou superiores.

Se o Latino é capaz de agradar milhões de pessoas, quem somos nós para dizer que ele está errado? Só estará errado, se estiver infeliz com o que está fazendo; se não for a verdade da sua natureza.

Danos Morais Contra à CEEE

Ano passado publiquei este artigo, sobre uma acusação da CEEE de que eu estava furtando energia elétrica. Fiz minha defesa e perdi. Entrei no Juizado Especial Cível e ganhei. Devido ao estresse causado a mim, a terem me colocado indevidamente no SPC e a todo o trabalho que tive que passar para provar minha inocência, resolvi acioná-los por danos morais. A sentença saiu ontem. Venci e serei indenizado. Segundo meu advogado (meu cunhado), as chances de um possível recurso deles ser atendido é mínima, pelo histórico desses tipos de causas.

Foi pelo mesmo motivo que publiquei o artigo anterior, que publico este. Que todos tenham em mente seus direitos, não só de cidadãos como de consumidores.

O Homem de Aço

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Me criei vendo e revendo Superman e Superman 2 — aqueles com o Christopher Reeve. Eu era — e sou — maluco por esses filmes. Não canso de assistir. Mostrar para minhas filhas virou apenas um pretexto para reviver minhas emoções de criança. Hoje percebo o quanto essas histórias tiveram participação na formação de meu caráter. É uma contribuição que os super-heróis têm para a personalidade de uma pessoa. Acredito nisso.

Foi assim, com toda a expectativa possível, que fui assistir “O Homem de Aço” — o novo filme da DC Comics para o personagem. E fui em grande estilo — no IMAX.

Gostei do que vi no começo. Apesar da direção de arte e fotografia com look 300-aliens-gladiador (muito em voga, e que me aborrece justamente por conta disso), o roteiro, até então, estava bacana. Mantiveram tudo de bom que existia da história do nascimento de Kal-El do filme original, mas com um ar modernoso, claro. Bem esperto! Assim, resgatam o fã antigo sem parecer boboca para a nova geração. Gostei também dos flashbacks que contam momentos do herói enquanto criança e jovem. É certo que o estilo de Nolan, co-autor da história e produtor do filme, não admitiria um storytelling cronologicamente linear.

É bacana também quando pescam passagens dos filmes de 1978 e 1980 e dão novos desdobramentos, como usar um acidente com ônibus escolar em uma ponte, ou mostrar uma briga de bar entre o herói e um encrenqueiro. Foi como dizer “olha, a gente adora respeita os filmes originais, mas agora vamos fazer do nosso jeito”.

As coisas começam a degringolar quando iniciam as lutas. Em uma conta capciosa, devem ocupar cerca de 40% do tempo da película. O problema nem é a quantidade, mas a intensidade. É tudo “over demais” (redundante assim). Não só nas consequências que, por exemplo, o soco de Zod no Superman pode causar, fazendo-o ser lançado de forma a perfurar cerca de 15 prédios, mas pelo estilo frenético de movimento de câmera. Está certo que estava no IMAX, e que cheguei a ficar meio tonto com tamanha inquietude visual, mas foi exagerado. Tudo era assim. Às vezes penso que o estilo serve apenas para mascarar efeitos e reduzir tempo de renderização.

Ao contrário das antecessoras, esta versão tem pouco de humano. É uma ficção alienígena. Não há exploração de personalidades. Os personagens não conquistam, não cativam, não se firmam. Isso é meio recorrente nos filmes de ação atuais. Fico me perguntando como antigamente se conseguia, em menos tempo (sim, porque os filmes de hoje sempre têm mais de duas horas) contar mais coisas, explorar mais os personagens, criar envolvimento maior, sem esse ritmo intenso que se convencionou agora. Hoje, se corre mais — tanto nos diálogos quanto na ação — e se transmite muito menos. Vão falar que estou velho, mas o que fica quanto você sai do cinema? Um zunido na cabeça?

Se você é fã, como eu, da saga antiga, claro, vá ao cinema ver “Homem de Aço”! Se não é, vá também. Agora, por favor, não deixe de assistir os originais.