Diálogo Esquizofrênico

— Oi. Tá boa?
— Tudo bem, querida?
— Viu aquele treco do Vilmar?
— Guria… Sabe que eu não…
— Nunca imaginei uma…
— … acreditei naquilo. Porque ele…
— … coisa dessas. Ele era mais…
— … parecia tão, tão…
— … novo que o Oscar. Mas estudaram…
— … feliz. E depois, aquela coisa toda da mulher dele que…
— … juntos quando ele rodou de ano, lá no Colégio São…
— … passou por tudo aquilo. Isso tudo me dá…
— … Francisco de Assis.
— … muita pena. Muita pena dos filhos…
— É. Muita pena mesmo.
— Então tá, tchau.
— Bom falar contigo. Beijo.
— Beijo.

Tem gente que conversa assim. Vai entender…

O Discurso

SONY DSC— Ela pediu que você falasse amanhã? O Pato te adorava.
— Ã… Tá… Diz pra Dona Neusa que ela pode contar comigo.

Não sei o que estava sendo pior. A notícia fulminante, mas nem tão surpreendente, da morte do meu amigo Graciel — o Pato — ou o pedido de sua mãe para que eu falasse no funeral. Eu escrevia bem. Talvez ela tenha lembrado de mim porque eu e o Pato fazíamos um fanzine de motocross na adolescência. Eu redigia as matérias e o Pato diagramava. Será que leu o texto sobre o Rally da Colônia? Aquele ficou bom! O problema é que sempre tive certa fobia de me manifestar em público e agora deram-me a incumbência de ser arauto de algum tipo de consolo aos familiares e conhecidos de meu amigo de infância. Só tinha visto discursos fúnebres em filmes. Nunca presenciei.

Todo mundo sabia que o Pato não chegaria aos 40. Mas 24 certamente era cedo demais. Bebida, direção, drogas. Todo fim de semana era assim. Quinta, sexta, sábado. Às vezes até quarta. Eu havia parado de sair com ele justamente por causa disso. Conversas e conselhos não faltaram. Cansei de ser o chato. Todo mundo cansou. Pato era de bom coração, mas não aparentava. Só por isso eu ainda mantinha contato. Só que ele sempre teve essa ânsia autodestrutiva, essa coisa da diversão acima de tudo, sem importar o que custasse. Pato já caíra de moto três vezes, sendo que em uma ficou na cama, todo quebrado, por dois meses. Já fora levado algemado para a delegacia por porte de ecstasy e expulso do colégio por atear fogo nas cortinas da sala de aula. É claro que ele sempre tinha um isqueiro. No final, a gente não nem mais se via muito pessoalmente, nem nos aniversários dos amigos em comum. Ele nunca ia. Nosso último papo foi no Facebook. Me convidou para atravessar os Andes de moto. Nem morto!

Peguei meu caderno especial, para ocasiões especiais, para textos especiais. Pensei no que escrever. Não havia muito para falar sobre sua vontade de viver; não era exemplo para ninguém. Não dava para discorrer sobre como enxergava a vida; não seria inspiracional. Não podia falar da falta que faria; mesmo os mais próximos haviam se afastado. Pato não tinha nenhum talento a ser cultuado. Mal desenhava uma casinha com chaminé. Não sabia assobiar. Até no poker era um desastre. Eu não tinha o que dizer de Graciel Alves de Lima. Nadinha. Amizade que não se explica. O texto mais importante da minha vida, o tempo passando rápido e eu com writer’s block. Que chique!

O dia amanheceu nublado. Parece que em velório é sempre assim. Pelo menos nos que fui. Pouca gente apareceu. Dona Neusa consternada, a irmã blasé, o tio que só deve ter ido porque precisavam de um homem forte para ajudar a segurar o caixão. Não mais que 10 pessoas, incluindo o pessoal do cemitério. Meia hora depois que cheguei decidiram finalizar o velório e proceder ao enterro. Melhor assim. Claro que segurei o caixão, junto com o Xandão, o tio Murci e alguém de uniforme azul por perto. Pato estava bem magro, quatro deram conta tranquilamente. Antes de o colocarmos no cubículo em que passaria a eternidade, Dona Neusa fez questão de lembrar da incumbência que me dera.

— Creio que o Tom, amigo de Graciel desde os três anos de idade, tenha preparado algumas palavras para este momento.

Assenti. Fitei todos rapidamente. Seus semblantes eram uma mistura de vamos-logo-com-isso e incredulidade. “O que alguém teria a dizer sobre aquele jovem?” Coloquei a mão no bolso da calça, tirei a caderneta, cocei a nuca. Abri na página marcada. Com os olhos ainda baixos, fiz o que tinha que ser feito. Em voz baixa mas audível, proferi tudo que era necessário:

— Eu te disse, Graciel.

Inserimos o caixão. O cara de azul lacrou com cimento e fomos almoçar. Já eram quase 12h.

Passagens

canstockphoto0232824Sábado. Vento norte. Porto Alegre, Aeroporto Salgado Filho, Terminal 2, terraço. Michel, 35 anos, observando a pista é abordado por um conhecido.

— E aí, Michel?
— Beleza, cara?
— Beleza.
— Tá vindo direto aqui?
— Não… Só aos sábados. Tô trampando.
— É… Eu também.
— Visse que o horário do Felipe passou para às 10h?
— Vi. Os pilotos estão todos refazendo a agenda. Deve ser por causa das mudanças dos voos, pra Copa. Mudou tudo.
— Deve.

— E o avião novo aquele?
— Legal, meu. Bem joia!
— Tem um ronco mais constante, puxado pro grave, mas com uns ra-ta-tás específicos… Sei lá. Trilouco.
— É. Um som lindo, diferente. Nem parece Boeing.
— Fotografei e mandei lá pro grupo. Colocaram na capa!
— Poxa, que tri!
— Ficou show mesmo. E os caras de São Paulo se puxam nas fotos, então, fiquei felizão!
— Vou ver depois. Ainda não entrei hoje.

— Tá boa a luz hoje, né?
— Céu de brigadeiro.
— É isso aí. Pode crer.

Meia hora depois, Michel senta em um banco, olhando para a pista. Uma senhora já de idade senta junto, na outra ponta, e não contém o entusiasmo.

— Olha, olha, olha…
— Subiu bonito, né?
— Uma pluma… Para um A330…
— É mesmo… A senhora está esperando alguém?
— Não, tô só a passeio. E tu?
— Também.


— Este voo é novo?
— É.
—Sabe que eu gostava mais na época da Varig, da Transbrasil, da Vasp…
— A Vasp era massa, né?
— Todas eram. Época boa que não volta mais.
— Era outro clima… Mas depois de toda a politicagem que fizeram…
— É?
— Pô, cheio de gente graúda envolvida e os caras tentando abafar os escândalos.
— Que coisa séria…
— E os funcionários chupando dedo… Sacanagem…
—Sempre estoura do lado mais fraco.

Ele levanta e, por uns 15 segundos, analisa o monitor de chegadas e partidas. Volta pro lugar.

— Eu agora tô juntando dinheiro…
— É?
— É. Quero ver se eu viajo também.
— Isso é uma coisa boa!
— É, né? Deve ser.
— É bom. É bom, sim.
— Pois é…

Por mais 15 minutos os dois ficaram olhando a pista, até decolar o próximo. O tempo começou a fechar. Michel novamente foi ver o painel de voos e a senhora foi embora. Não se despediram. O vento mudou para noroeste.

A Loja de Uma Coisa Só

Frederico Uribe

Quem nunca teve vontade de mudar radicalmente aquilo que faz como profissão; escolher algo totalmente inverso, que não tenha as complicações e implicações de nossos trabalhos diários? Eu já. Em um desses meus devaneios, penso em abrir algum comércio especializado em um único tipo de produto. Por exemplo, uma loja focada em fósforos, ou em pregos, ou em pentes. Algo assim, bem ridículo, mas que quando alguém precisasse lembraria direto como o melhor local para comprar. O nome seria bem objetivo, como “Casa dos Pregos”, “Só Fósforos”, “Cuca Pentes”. A Casa dos Pregos não teria parafusos, no máximo martelos. A Só Fósforos jamais venderia isqueiros. Seria contra nossos princípios. E a Cuca Pentes até poderia ter escovas, mas nunca tesouras, muito menos xampus ou secadores de cabelo.

E não é que passando de carro pela Andrade Neves, próximo ao Mercado Central, avistei uma “Só Cadarços”? Meus olhos brilharam. De imediato, o primeiro impulso foi pedir emprego. Já imaginei cadarços de todas cores imagináveis, em colunas cromáticas como uma imensa tabela Pantone. Modelos fosforescentes, dourados, prateados, furta-cor, zebrados, onçados, tigrados, listrados, peludos, com LED e pilhas, que amarram sozinhos, elásticos, de nylon, curtos, longos, médios, médio-longos, médio-curtos, para cano alto, cano baixo, sem cano, folhetos explicativos com diversos tipos de nós, uma para cada ocasião. Não parei para conhecer, mas minha cabeça foi longe.

Visualizei meu primeiro dia de trabalho na Só Cadarços, 8:30, todo empilhado, pronto para atender o primeiro cliente:

— Tem cadarço?

É… Talvez eu não esteja ainda preparado para tamanha evolução espiritual.

Deu para perceber?

az60b[1]— Sala 3, 20h, “O Segredo de Sarah”, por favor.
— Uma entrada só, senhor?
— Sim. Uma só.
— O senhor não vai… ? É… Não vai… ?
— “Não vai” o quê, moça?
— Não vai querer?
— “Querer” o quê, menina?
— Aquilo?
— “Aquilo”?
— É… “Aquilo”!
— Desculpa. Não estou entendendo.
— Aquilo que muitas pessoas que vêm ao cinema pedem.
— Pipoca?
— Não, senhor…
— Coca-cola?
— Não.
— Você está me oferendo drogas, senhorita?
— Não! Claro que não, senhor… ‘Deusolivre’. Sou de igreja…
— Ah, entendi… Por isso esse mistério todo. Não está acostumada com papos objetivos, né?
— Senhor…
— Vamos logo, minha filha. Me dá o ingresso logo que a sessão vai começar.
— Sim, mas eu preciso saber…
— Ah, não… Tudo de novo?
— Senhor, quantos anos o senhor tem?
— 59.
— É?
— Tá duvidando?
— Claro que não, senhor. É que parece que o senhor tem mais.
— Parece mesmo?
— Um pouco mais, só. Bem pouquinho.
— Tipo, quanto?
— Ah, tipo, assim… Ã… Tipo, assim… 60.
— Deu mesmo para perceber, é?
— Ué? Mas o senhor não disse que tem 59?
— Na verdade, fiz 60 semana passada…
— Então, senhor… Não vai querer?
— Não! Eu não vou querer meia entrada! Não vou querer! Merda!

Telemarketing — A Vingança

vingança telemarketingTrim… Trimmm

— Ã… Ã… Alô…
— Bom dia! O senhor Carlos se encontra?
— (…) Como o senhor esteve conseguindo este número de telefone?
— Como, senhor?
— Senhor, o senhor está ligando para o telemarketing da Editora Abril. Como esteve conseguindo este telefone?
— Como assim, senhor? Aqui é do telemarketing dos cartões Mastercard, senhor. Este telefone estava constando da minha lista de prospecções. Por isso que eu tenho que estar contatando, senhor.
— Sinto informar, senhor, mas o senhor está ligando de um telemarketing para o outro. Eu não recebo chamadas. Eu faço, senhor!
— Que estranho, senhor.
— Sim. Nunca vi este telefone tocar.
— O meu também não toca nunca, senhor.
— Então, se o senhor estiver permitindo, eu preciso voltar ao trabalho. Ainda tenho 20 contratos para fechar hoje para alcançar minha meta, senhor.
— Eu ainda tenho 34. Aqui é bem puxado, senhor.
— Bom trabalho. Até mais.
— Pro senhor também. Tenha uma boa tarde, senhor.
— Obrigado.
— (…)
— Não vai desligar, senhor?
— Eu não posso. Só o cliente pode desligar. Não tenho esta opção no sistema.
— Aqui na Abril também, senhor!
— E agora?
— Não sei. A gente tá pendurado.
— Puta… Que enrascada!
— Pior!
— Se a gente esperar um pouco, será que a ligação cai?
— Olha, não acho uma boa ideia, pois a ligação nunca cai em telemarketing.
— Na verdade, cai mais em SAC, né?
— É! Tive uma ideia!
— Hm. Fala.
— E se a gente transferir para o setor de cancelamento? Lá sempre cai a ligação.
— Eu não tenho como transferir daqui.
— Droga. Nem eu.
— Eu vou chamar o meu gerente e perguntar o que eu faço.
(…)
— E aí? Conseguiu?
— Putz! Ele não sabe. Nunca viu isso acontecer. Talvez se deligasse a central da tomada, mas todos os operadores iriam se desconectar.
— E agora? Eu tenho uma meta pra bater! Não posso perder tempo.
— Bom… Já que a gente tá preso… O senhor possui cartão de crédito? Trabalha com Mastercard?
— Não estou interessado.
— A tentativa é grátis, né?
— E a gente tá com uma promoção de assinatura da Veja. Assina por um ano e ganha três meses de Playboy. O senhor sabia que o hábito da leitura é responsável por conexões cognitivas importantes para o desenvolvimento da pessoa?
— Bom apelo! Mas Playboy eu vejo na Internet.
— Eu estou falando de desenvolvimento do cérebro e da Veja!
— Sei… Desenvolvimento do cérebro… Pior, por isso a Playboy tá quebrando. Todo mundo vê na Internet. Que promoçãozinha de merda, hein?
— Depois ainda querem que a gente bata a meta.
(…)
— Senhor, se a gente conseguir desligar, o senhor pode estar me atribuindo uma nota de zero a dez para este atendimento?

Cascas de Feridas — Oficina do Carpinejar

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Neste fim de semana, participei da Oficina de Crônicas de Fabrício Carpinejar, em Pelotas. Foi muito bacana. O cara é fera e fez com que muitos de nós quebrássemos alguns paradigmas pessoais.

Abaixo, publico o exercício do primeiro dia. Tivemos 10 minutos para escrever sobre um de nossos defeitos. Após a última linha, coloco o final alternativo sugerido pelo “professor” e, sem dúvida, melhor que o meu.

Arranco todas as casquinhas. Sim, casquinhas. Daquelas de ferida. Não resisto. E olha que tenho muitas. Até as fabrico só para poder cavucá-las. Minha matéria-prima preferida são picadas de mosquitos. Dão uma coceira enorme. E o melhor é que sou alérgico. Isso facilita o processo. Quando recentes, aproveito a unha mais saliente e faço uma fenda. Fica parecendo uma bundinha. Depois, faço outra e vira uma marca em xis. Mais um outro xis envezado e tenho um asterisco. Nossa, como é bom! Ela fica vermelha. E pulsa. Como pulsa, meu Deus! Quando alivia, começo tudo de novo. Dezenas de vezes.

Com esse processo metódico e paciente, toda picada de mosquito no meu corpo vira uma casquinha de ferida. Quando acontece, posso arrancar em ritual sádico. E sabe o que é melhor? Elas voltam! Sempre voltam!

Tenho uma grande cultura de casquinhas que mantêm sob controle meus instintos mais primitivos.”

Final alternativo:
Durmo de janela aberta.”

O Quarto Escuro

Entrei no quarto escuro. Puro breu. Fui tateando as paredes, sentindo a textura, procurando pistas do que havia ali. O tato dizia que a tinta era preta. Será? Com o pé, senti o rodapé. Devia ser preto também, pois não refletia nada. O piso, liso, mas não escorregava. Não era parquet, pois parquet a gente sente as tabuinhas. Também não era carpete nem lajota. Não fazia inhec-inhec, então, não era emborrachado. Não havia janelas, marcos, nem tapetes. Em pouco tempo, já não sabia mais onde era a porta por onde entrei. O lugar era grande. Me desnorteei. Voltei, fui adiante. Cruzei a sala pelo meio, mas do outro lado parecia tudo igual. Continuei pelas paredes e achei uma saliência. Um cartaz. Não, uma plaquinha de sinalização, talvez. Lembrei do celular no meu bolso. Liguei para iluminar. Era uma placa, mesmo. Dizia: “não use flash”.

Todo Homem que se Preza

Todo homem que se preza tem um cortador de unhas. Só seu. E tem orgulho. Compara com os dos amigos. Gaba-se. Cortará suas garras, semanalmente, 52 vezes por ano, aproximadamente.

A melhor forma de configurar uma tradição, é ganhá-lo de seu pai.  Mesmo que não seja o dele. Mas, certo, há de ser melhor. Maior, pelo menos. Além de mais imponente. Daí veio o meu.

Não se compra um cortador de unhas. Ele vem. De uma forma ou de outra, você o reconhecerá só de olhar. Será aquele que tentar te matar; que é preciso domar para que não fira sua pele nem avance demais o corte. Você não se conectará a ele por USB, nem pelo cabelo, como em Avatar, mas pelas cutículas molhadas, salientes e inchadas pelo banho.

Homem que é homem não usa o alicate de sua mulher. Ela é que recorrerá ao seu, pedinte, quando desprevenida.

Todo homem que se preza tem um cortador de unhas. Só um. E o terá até sua morte.