Às vezes, vocês não têm a impressão que direita e esquerda trocaram de lado em muitos temas? Sabe quando a gente diz pra pessoa desorientada virar para a esquerda, ela vira pra direita? Aí vem aquelas frases:
— É a mão do relógio!
Ou…
— É a “outra esquerda”!
Antigamente, era a esquerda que acusava os países estrangeiros de usarem artifícios econômicos por interesse nas riquezas de nossas florestas. Agora é a direita.
Não era a esquerda que questionava a indústria da saúde por nos manterem reféns de seus produtos em nome do lucro? Hoje é a direita que questiona as vacinas e o establishment científico como um todo.
O cara que questionasse que o homem foi à lua era, com certeza, alguém que não aceitava o que os americanos nos impunham goela abaixo em nome de sua supremacia. Agora são representantes da direita que acreditam até na Terra plana.
E a música? A esquerda sempre foi elitista nesse quesito artístico, mas hoje é a maior defensora da indústria da música de massa, alegando que a verdadeira cultura do povo está ali e esquecendo que são produtos de grandes empresários do ramo, explorando e escravizando o gosto musical das pessoas.
E os católicos de direita que adoravam a Igreja e agora desaprovam o Papa? Tem esquerdista exaltando o Vaticano!
A Globo era o reduto do capitalista. Agora a direita abomina e a esquerda não para de compartilhar notícias vindas de lá.
Não sei não, mas acho que trocaram de lado só para continuar brigando.
Difícil algo prender minha atenção no cenário musical atual. Até as novidades mais inventivas soam como cópias de outras. Me falta também dedicação para insistir mais vezes e aumentar as chances de assimilação do novo. Nessa situação, é preponderante que a primeira audição seja arrebatadora. E esse foi o caso de “Amarelo”, do Emicida (cuja forma gráfica é “AmarElo”).
Já havia me encantado o anterior “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e
Lições de Casa…”, segundo álbum do artista. Mas este terceiro, com nome de
cor, tocou ainda mais forte.
O primeiro ponto é o reforço na coerência da carreira. Quando os
valores de uma obra são transmitidos para a seguinte e, de forma ainda mais
contundente, consolidam a linguagem e qualidade do artista; se percebe que o
talento é consistente e não passageiro. Isso é o ponto um.
Mas o mais importante, óbvio, não é o culto ao artista, mas sua obra.
“Amarelo” arrepia a cada verso, a cada escolha melódica e de arranjo.
Sou um entusiasta da mistura de docilidade com vigor. Emicida entrega isso de
forma perfeita — é essa uma de suas marcas.
Valorizo a melodia. Por isso, de forma geral, não me encanta estilos
ligados ao rap. Uso “rap” aqui, pois é a origem do cantor, mas sinceramente,
por isso que falei, vejo uma evolução do estilo com Emicida. São “canções”! Têm
melodia sem perder a força da palavra, atributo essencial para o estilo musical
do hip hop. Emicida também é literatura. E da mais alta qualidade!
Mas também não é só isso. O valor da obra não está só na forma genial com
que está redigido, mas no conjunto: no passo melódico acima do esperado, nos
arranjos, nas misturas, nas escolhas bem feitas. Pois se fosse, talvez, para
mim, ainda não bastasse.
Emicida não canta a minha realidade, nem minhas questões pessoais gerais. Mas sabe dialogar e transmitir, para pessoas como eu, que também não fazem parte da realidade que ele canta, os temas tratados. Não sei nem se estou autorizado a tratar de um assunto que não domino, mas isso talvez seja o mais importante no trabalho dele: transbordar os temas para outras esferas, não ficarem confinados ao gueto, dar visibilidade. A música e a literatura brasileira estão repletas de exemplos de artistas que souberam trazer à tona realidades do povo brasileiro tão diversas em nosso país.
Por que eu estou escrevendo isso? Porque quando escuto Emicida, eu fico
com o peito transbordando. Só isso basta.
Amarelo é a cor preferida de minha filha menor, que tem uma musicalidade aflorada muito grande e escuta as novidades comigo no carro. Aproveito os momentos para nutrir, da forma mais variada que consigo, a curiosidade artística dela. Percebo, por seu silêncio, que os ouvidos estão atentos enquanto o olhar atravessa distante a janela.
Nota do editor (posterior à premiação — leia no final, se preferir):
O vencedor foi “Parasita”. Pensando aqui o motivo da minha avaliação ter sido equivocada — aprendendo com os erros.
(1) A Academia está mudando. Muita gente nova,de vários países, foi convidada a ingressar. Isso aumentou a diversidade. É bom. Não tinha conhecimento disso até a transmissão da cerimônia.
(2) Existe um critério que não entendi bem como é, mas é algo como: se um filme figura em muitas categorias como segundo lugar isso pontua também e conta pra categoria de melhor filme, que é, resumidamente, uma coletânea de qualidades encontradas nas demais categorias.
(3) Mas o mais preponderante é que posso ter subestimado o fato da história de 1917 ser simples demais. Não estou falando de roteiro. Roteiro é uma coisa, argumento de história é outra. O roteiro de 1917 é demais, mas a história pode não ter sido suficiente para elevar ele no julgamento dos profissionais votantes e ganhar melhor filme. É como uma música: a boa mesmo é a que você consegue assobiar. Como você contaria a história de 1917? “O cara tinha que entregar um bilhete pra salvar 1600 vidas e se mete em muitas confusões pelo caminho.” Não acontece muita coisa além disso que seja contável. É difícil “assobiar” 1917.
Meu filme preferido é “Era Uma Vez em… Hollywood”. Fiquei chateado que ganhou pouca coisa. Tarantino merece um reconhecimento maior. Mas é aquilo: muito filme bom! Isso é o mais importante.
Não recordo de um Oscar ter tantos filmes bons como o deste ano. Eu não assisti “História de Um Casamento” e “Adoráveis Mulheres”, apenas. Estamos em uma boa safra. Existem vários filmes capazes de levar o prêmio. Mas aqui vou dizer por que acho que “1917”, de Sam Mendes, vence a parada. A maioria dos motivos tratam de inovação sobre um tema bastante usado — a guerra.
Você lembra de algum título sobre a primeira grande guerra?
Quantos filmes de guerra você lembra que se concentram em apenas um personagem? Geralmente, mostram batalhões ou missões de soldados, muitos combates… Aqui é a vida de uma pessoa, sua missão e obstinação em completá-la. Sabe quando recebemos a notícia de um acidente de avião ou massacre real em que há muitas mortes? A gente se estremece, claro. Mas o impacto é muito maior quando a tragédia é personalizada em uma pessoa ou uma família, e quando nos contam a história dela a ponto de nos envolvermos mais. Este filme não se detém do personagem, mas o próprio desenrolar se encarrega de nos apresentar aquele soldado.
Quantas histórias são tão simples quanto “leve esta mensagem para impedir uma emboscada”? E não só, mas o roteiro não se afasta disso, nunca. Toda vez que surge um assunto periférico eles puxam de volta ao mote principal.
A imersão causada pela condução em plano sequência e, principalmente, quase como uma câmera subjetiva, que acompanha o personagem, é extremamente envolvente. Ela nos coloca dentro da película, no mesmo ambiente, com os mesmos sentimentos de Schofield. Parece um game de guerra, em primeira pessoa, e isso cativa até os expectadores mais novos, coisa rara em um filme passado há 100 anos.
É tecnicamente impecável, seja na fotografia, da direção de atores, na produção, no som, nos efeitos mecânicos e eletrônicos, na edição (que apesar de pouca, é essencial no filme)…
“Era Uma Vez em… Hollywood” é excelente! Incrível! O melhor de Tarantino pra mim. Mas não é um filme unânime. Tem as estranhezas do diretor, o que não é o padrão da Academia.
“Coringa” é sensacional. Mas a tradição dos filmes de super-herói (ou de vilão) não é de ser reconhecido a esse ponto pelo Oscar. Ele vai ficar com melhor ator e algum outro prêmio, certo. Se fosse ganhar seria mais para reconhecer o que os filmes de super-heróis têm feito pelo cinema na última década. Mas nesse caso, seria concedido à Marvel e não à DC.
“Parasita” é muito bom. Rompe com o cinema tradicional. Nos traz uma linguagem diferente, surpreende… Mas… Está também concorrendo como Melhor Filme Estrangeiro. Deve levar por lá.
“Ford vs Ferrari” é bem bom. Mas não tem “corrida” pra tanto.
“Jojo Rabbit” é bem legal. Se tivesse que enquadrar ele em algum padrão, estaria próximo de “A Vida É Bela”. Mas concorrendo com outro filme de guerra, cheio de qualidades como mencionei, a Academia não repetiria o estilo de prêmio concedido a Benigni.
“O Irlandês” é Netfilx. Ainda não está na hora de valorizar um filme de uma plataforma que, como Spielberg disse, “não é cinema”. Na real, eu achei chato pra caralho.
Não é um filme politico, apesar de tratar de uma guerra. Parasita, Jojo, Coringa são; têm aquele viés questionador ideológico. Não que isso seja ruim, mas estamos em uma momento histórico mundial bastante polarizado e “1917” surge para que a gente respire, como um alívio, e deixe as armas ideológicas de lado para entrar na história pura e simples de uma pessoa, aliás, da missão de uma pessoa (mais simples ainda). A gente tá precisando de um pouco de paz e a ironia é um filme de guerra ser a resposta pra isso.
Mais uma vez estou cometendo o desatino de comparar a qualidade de imagem da Sony RX1r com o novo iPhone: agora, o 11 Pro, que tem a melhor câmera de um smartphone já lançado — segundo minha magnânima opinião.
Já fiz outras comparações com a mesma full frame neste blog. A primeira foi com a minha câmera anterior, uma Leica D-Lux4, e a segunda com um iPhone X. Aparentemente parecem testes sem valor, tendo em vista se tratarem de equipamentos com preço e características estruturais totalmente diferentes — e para finalidade também distintas. Porém, para mim, fazia todo sentido já que a questão era “qual equipamento devo levar para o passeio, a viagem ou aquela festa?” A Leica tinha 50% do tamanho da RX1r, e os celulares 25%. Sacou?
Então, vamos ao processo.
Elegi um objeto com bastante detalhes e bem colorido: uma orquídea com pétalas de diversas cores.
Usei a câmera com abertura 4.0, pois achei que seria semelhante à do iPhone. Ao analisar as imagens, descobri que deveria ter fechado mais o diafragma par algo com 16. Vocês irão notar que o fundo desfocou muito. Mas como isso só traria revés para a Sony — e estava confiante nela! — não repeti o clique. E aí se apresenta uma das desvantagens do telefone: não ter controles sobre abertura e velocidade — você fica à mercê da vontade do equipamento.
Como a resolução da RX1r é bem maior que a do telefone, foi preciso ressamplear a imagem gerada por ela para se equivaler à do iPhone 11 Pro. E isso é outro complicador para a câmera: redimensionar a imagem sempre piora porque entrelaça os pixels e embaça um pouco. Mas vamos ao teste.
Abaixo as duas imagens. A primeira é da Sony RX1r e a segunda é a do iPhone 11 Pro. Você pode clicar nelas para ver em tamanho completo.
Tenha em mente que você deve comparar apenas o objeto em foco, já que cometi o deslize de não aumentar a profundidade de campo da RX1r para se equivaler ao iPhone. Portanto, objetos periféricos ao assunto, perdem nitidez. Não foram feitas correções de cores, a não ser às que o próprio smartphone aplica automaticamente, como HDR e os cambau. O teste aqui é de óptica e não sobre qual a imagem é entregue “de forma mais rápida do jeito que você queria”, até porque o iPhone não te dá a gama de opções de uma câmera semiprofissional.
Imagem Sony RX1rImagem iPhone 11 Pro
Agora, coloco, lado a lado, um corte do mesmo ponto das duas imagens, sem ampliar mais do que a qualidade original acima. Ou seja, pixels em 100%. De novo, a primeira é da Sony RX1r e a segunda é do iPhone 11 Pro. Você pode clicar para ampliar.
Detalhe comparativo. à esquerda, Sony RX1r. À direita, iPhone 11 Pro.
Não darei o veredito. Se não conseguir notar a diferença, é uma bênção! Claro, pense bem: você não vai precisar investir em uma câmera full frame e nem viajar com um equipamento que não cabe no seu bolso! Parabéns!
Pegamos um Uber das proximidades do estádio do Palmeiras para o hotel. O motorista estava curioso sobre por que as ruas ao redor não estavam mais fechadas. “O show foi cancelado” — disse a ele. Não acreditou. Horas antes havia deixado mãe e filha, que vinham de outra cidade, para ver o show. Então contei a seguinte história…
Minha filha adora o cantor canadense de 21 anos, filho de português, Shawn Mendes. É um novo Justin Bieber melhorado, pois tem uma pegada mais autoral e aparenta ser bom-moço.
Pois quando, em fevereiro, abriram as vendas para o show do dia 30/11 em São Paulo e decidimos que levaríamos nossas filhas e duas amigas. Conseguimos os ingressos com dificuldade por causa da procura e sistema adotado pelo site. O sucesso das vendas foi tão grande que em seguida também abriram sessão extra para um dia antes, 29. Compramos passagens e reservamos hotel na mesma ocasião. Os pais das amigas precisaram se preocupar também com as burocráticas autorizações de viagem e de acesso a eventos para virem sozinhas conosco.
Como toda adolescente, mil planos e sonhos passavam por suas cabeças. Malu, com sua autoestima e espírito sonhador sempre disse — em um misto de convicção e brincadeira — que iria casar com Shawn Mendes.
Viemos para SP. Ouvimos declaração superentusiasmadas de quem foi ao concerto do dia 29 no Allianz Parque. Como pai, embarquei na felicidade das gurias e estava empolgado também com nossa vez no dia 30.
Os portões abririam às 16:30. Chegamos 17:30 e achamos estranho que ainda estavam fechados e a fila gigantesca, algo pelo qual não esperava, devido à excelente vazão de entrada que o local proporciona. Pelas 18h alguém na nossa frente falou que o show estaria cancelado. Não dei importância, mas logo o assunto voltou à fila e resolvi checar nos sites de notícias. Alguns já noticiavam. Fui nos stories do cantor e ele mesmo confirmara que, por precaução com suas cordas vocais, o médico aconselhou a não se apresentar naquela noite.
Não é preciso dizer que o clima de velório se abateu sobre a massa de fãs adolescentes. Incrédulas, continuavam em seus lugares na fila, se agarrando no último resquício de esperança; como se estivessem vivendo um pesadelo do qual logo acordariam. Mas era verdade. Minha filha e as amigas, que iriam a seu primeiro grande show, desabaram. A gente sempre pensa que qualquer coisa pode dar errado em uma “aventura” interestadual como esta: que o avião vai cair, que não irão aceitar as autorizações de viagem das amigas, que a reserva do hotel vai falhar, que irão nos assaltar em São Paulo… Tudo passa pela nossa cabeça, menos que o artista vai cancelar o show.
Volta e meia a Malu me falava sobre como Shawn Mendes era legal com os fãs e que, quando algo não combinava com essa imagem, era culpa dos seguranças que nem sempre deixam ele se aproximar das pessoas, ou da produção que diz para ir descansar e não tirar mais fotos com ninguém. Subterfúgios desse tipo fazem com que os artistas sejam os bons moços cercados de cuidados profissionais de quem zela por eles. Os maus são os outros.
O motorista só ouvindo e concordando.
Agora, pensa: um show cancelado por uma laringite. Sendo que ele passou o som pouco antes das 16:30. Um médico que, obviamente, não iria atestar que ele pode cantar, colocando em risco os bilhões que giram em torno da carreira do guri. Mas 40 mil pessoas (estimo) ficaram a ver navios por causa de uma dor de garganta. Eu não posso avaliar a gravidade do quadro clínico, claro, mas tenho como dar palite (talvez furado) sobre como sanar o problema e não deixar tanta gente na mão: ele deveria ter ao palco contar do diagnóstico e dizer que havia duas opções: (1) não fazer o show ou (2) fazer com playback. As fãs não iriam se importar. Pelo contrário! Ele sairia por cima! Mostraria que é querido, que se preocupa com as pessoas. Seria mais amado que nunca pelas adolescentes que cantariam de ficar roucas em seu lugar. Mas Shawn Mendes preferiu a opção imatura a estilo Neymar, de quem coloca a culpa nos seguranças por não poder ser mais atencioso e que diz que o médico aconselhou a não cantar. Assim, além não assumir a responsabilidade que deveria como dono de sua própria carreira e reputação, dá provas de que está em apenas em um negócio em que a consideração pelas pessoas não se aplica.
Nisso, o motorista do Uber me fala que no dia seguinte, domingo, Palmeiras e Flamengo jogarão no mesmo estádio. A primeira coisa que pensei foi “Meu Deus! Que logística desmontar um show dessa magnitude em algumas horas para dar espaço a uma partida de futebol de dois grandes times do País”. Mas ele continuou dizendo que nunca houve um jogo ali nessa situação; que sempre que há evento no dia anterior, a disputa é transferida para o Pacaembú.
Eu adoro uma teoria da conspiração. E parece que o uber também. Deixo a imaginação com vocês sobre como a conversa se desenrolou.
Ah! E o aprendizado paras as gurias? Nem todas as coisas se tem controle e que não há pai ou mãe que resolvam de mão beijada para elas. São privilegiadas por terem tido uma oportunidade que quase se concretizou e, duas vezes, por levarem a lição para casa de uma forma, digamos, bem fácil de encarar. A vida vai se encarregar de trazer situações bem mais cruéis.
Algumas pessoas creem tanto em algo, que não importa os dados contrários, não se dobram. Vão morrer abraçados com sua crença.
Como a compreensão total, ampla e irrestrita da ciência é algo, digamos, “para cientista” e não pra pseudocientista, é difícil convencer os entusiastas de teorias conspiratórias. Sempre a paixão e a entrega incondicional falarão mais alto que as palavras de um “nerd” cientista.
Mas será que há algum jeito, forte o suficiente, de convencer os terraplanistas que a Terra é geodésica? A primeira ideia que me vem é serem passageiros em um voo espacial tripulado, que já está disponibilizado comercialmente e acontecerá nos próximos anos. Mas é caro pra chuchu. Não vai rolar.
Por 1.200 dólares australianos, um avião parte da Austrália em direção à Antártica, sobrevoa o continente por quatro horas em linha reta e volta em outras quatro. São cerca de 12 horas e meia totais em um voo charter que prova que o polo sul não é uma borda de catupiry intransponível como prega a teoria terraplanista. É também a oportunidade de compreender que só não há linhas comercias cruzando a Antártida porque não há demanda entre as cidades origem e destino que exigiriam tal rota.
E olha que legal: a próxima viagem está marcada para o dia 10 de novembro!
Então, os cerca de R$ 4500, mais um outro tanto desses para ir até a Austrália, pode ser um investimento razoável para não ficar passando vergonha pelo resto da vida. Concorda? Vai lá!
Não sei se tenho direito ou não de abordar este assunto, mas o farei a respeito dos aspectos que conheço, relacionados a meus meios de atuação.
Para quem não acompanhou o ocorrido, o prefeito Crivella, motivado pela página de uma HQ da Marvel — à venda na Bienal do Livro do Rio de Janeiro — que exibia um beijo gay, ordenou que todas as publicações com temática LGBT do evento fossem embaladas em plástico preto e sinalizadas como impróprias, como se fossem pornografia. Não preciso discutir o fato. Todo mundo sabe o que um membro da Igreja Universal do Reino de Deus pensa a respeito do assunto e, quem me conhece, sabe que sou 100% contra.
Só que aí, entrou Felipe Neto. O youtuber, cuja carreira e amadurecimento profissional e pessoal aconteceu aos olhos de todos pela internet, hoje tem 34 milhões de inscritos em seu canal e, cada vídeo seu atinge, no primeiro dia de publicação, cerca de 1 milhão de visualizações. Chocado com a atitude retrógrada do prefeito, como a maioria das pessoas de bom senso, Felipe comprou todo o estoque de publicações sobre o assunto das editoras presentes na Bienal do Rio. Até sexta, eram 10 mil unidades. Mas ele não só comprou como as distribuiu gratuitamente, embaladas em plástico preto e sinalizadas como mandou Crivella: “Este livro é impróprio.”, “… para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas” — complementou. O número de exemplares depois foi atualizado para 14 mil. Você pode ver aqui o vídeo publicado dia 6, com a declaração de Felipe:
A imensa maioria das manifestações foram de apoio, mas alguns se posicionaram contra, dizendo que Felipe foi oportunista. Pois bem, é sobre esse aspecto que me sinto no direito de fazer textão.
Acredito quer cada pessoa que tem o intuito de ajudar, ou simplesmente se manifestar, tem mais legitimidade e consegue melhor resultado quando o faz dentro de seu métier. Um músico, que quer abordar o tema do fascismo (vide Roger Waters), compõe e leva a mensagem em suas canções. Um produtor de alimentos, sem dúvida se sente mais à vontade e será mais eficiente se ajudar doando alimentos que produz. Uma agência de propaganda, como a minha, se acha mais útil quando cria campanhas voluntárias, para ajudar as causas em que acredita. Não preciso dar mais exemplos. São infinitos. É assim que procede um artista plástico, um escritor e, até, um político, que realmente está imbuído por fazer o bem comum.
Então, de que forma um youtuber, com tamanha visibilidade e influência seria mais eficiente? Felipe é bom de comunicação, de marketing e de criatividade, além de ter feito muita grana na carreira. Juntou seu talento com o dinheiro que tem e mandou o recado mais bem dado do ano.
Achei do caralho! Fiquei emocionado! As minorias não clamam por representatividade, apoio e voz? Felipe deu a voz! Felipe apoiou e representou. De que forma teria feito melhor? Não me ocorre.. Eu não fiz nada. O que você fez?
Foi oportunismo? Não, foi oportunidade! A vida é feita delas. E eu espero, de coração, que ações oportunas como essa revertam também para quem as promove, pois estaremos criando um círculo virtuoso.
Fico feliz que minhas filhas tenham visto o vídeo de Felipe e a repercussão que sua atitude teve. Serão melhores do que eu e, no futuro, talvez façam o que eu e você não fizemos em oportunidades como esta.
Me considero capitalista, mas alguns que encontro por aí me fazem ter vergonha do título.
Conta-nos o Google que o termo “de araque” vem da bebida árabe arak, com teor alcoólico de 80%, que propicia, em pessoas não acostumadas, grandes bebedeiras e falas repletas de besteiras. Daí a expressão brasileira que designa algo tão desacreditado quanto uma pessoa de porre.
Pois grande parte dos capitalistas brasileiros podem ser considerados “capitalistas de araque”. Vejam só: se o capitalismo é o sistema econômico baseado na obtenção de lucro, tudo que for contra isso não é capitalismo. Acontece que tem gente que se diz capitalista e vai contra o capitalismo.
Vejamos.
O capitalista real sabe que para conseguir continuar produzindo precisa zelar para que a fonte de sua matéria-prima não se esgote. Já o capitalista de araque acha que deve basear seu negócio em uma produção predatória, que vise apenas o resultado imediato e esqueça do horizonte a longo prazo.
O capitalista de fato entende que é preferível, em termos de esforços de produção, vender menor quantidade com maior lucro do que o contrário. O capitalista de araque prefere competir apenas pelo preço, e acha que valor agregado é só um termo batido guardado nos livros de marketing.
O capitalista inteligente sabe que quanto mais humanizadas forem suas relações empregatícias, mais engajados e felizes serão seus colaboradores; mais produzirão! O capitalista de araque não faz a mínima ideia do que é tratar os outros com respeito e ser um líder inspirador; usa a técnica do chicote e das metas produtivas insanas.
O capitalista de
verdade sabe que para obter lucro é preciso consumidores com recursos
financeiros; uma melhor distribuição de renda. O capitalista de araque acha que
quanto mais pobres houver, melhor, pois poderá contratar força de trabalho mais
barata.
O bom capitalista tem como objetivo entregar o melhor produto, fazer seu cliente feliz e, assim, gerar lucro recorrente. O capitalista de araque está interessado apenas em realizar vendas imediatas e baseia a qualidade de sua entrega no que o mercado está praticando, apostando em um formato de negócio fadado à morte.
O capitalista legítimo é um otimista, protege a vida, o meio em que está inserido e valoriza as pessoas, pois é isso tudo que fará a roda girar e gerará a crença no futuro, base econômica primordial para o aumento da riqueza. Para o capitalista de araque tudo está sempre ruim, ele nutre o ódio e pouco se importa com o ambiente a seu redor. Está sempre apostando que algo dará errado e se torna a causa da própria desgraça.
Há 24 anos, vejo capitalistas de araque por aí. Trabalho diariamente para ser um capitalista consciente, não só porque é a melhor forma de gerar lucro, mas porque é o jeito certo de fazer as coisas.
Estava em um ambiente comercial onde tinham alguns pequenos restaurantes com poucas mesas em cada. Todos bem concorridos. Um lugar de passagem e não para ficar. Eu e minha família decidimos comer e optamos por um.
Naturalmente, como manda o hábito brasileiro, pedi para a Stela guardar uma mesa que acabava de vagar enquanto eu entrava na fila para fazer o pedido para todos. Na minha frente estava uma família de turistas alemães. Mas ao contrário da minha, estavam todos de pé, junto ao pai que já era atendido pelo caixa.
Depois de pagarem, com as bandejas em mãos, foram buscar lugar em uma das cinco mesas, mas todas estavam ocupadas com clientes almoçando, menos aquela em que minha esposa aguardava com as gurias. O alemão voltou ao caixa e reclamou que havia uma mesa ocupada por pessoas que não estavam se alimentado. O caixa foi até elas e pediu que a desocupassem. Tentaram, em vão, explicar que eu estava comprando a comida pra elas. Tiveram que levantar.
Não recordo de ter sentido antes tanta vergonha por ser brasileiro em uma viagem ao exterior. Me visualizei um homem de neandertal, um bicho selvagem, um cachorro que precisa garantir o seu antes que outro o tome.
Depois, comecei a reparar que em outros lugares públicos, bastante frequentados por turistas, havia um cartaz dizendo algo como “só pegue mesa após estar servido”.
Óbvio, é tão simples! É primário! Se uma família guarda lugar enquanto alguém se serve, ocupa a mesa por, pelo menos, o dobro do tempo necessário. É preciso um espaço físico duas vez maior em uma praça de alimentação para comportar pessoas mal-educadas como a gente. Você sabe quanto custa o metro quadrado em um shopping center, em um aeroporto? Poderia ser bem menos se agíssemos como gente civilizada e não como um cachorro que rosna para defender seu osso.
Hoje fui almoçar no Espaço Nave. Ótimo lugar! Excelente comida. Só havia ido lá à noite. Estava lotado devido ao clima bom deste feriado. Eles até tentam ao meio-dia que você se sirva antes de pegar lugar (afinal, são inteligente e cultos) — fecham a entrada do pátio e deixam apenas a do caixa, formando a fila para o buffet direto ali. Só que o brasileiro pensa como eu pensava. Ele manda alguém guardar assento e vai para a fila. Em situações assim, onde cada um precisa se servir de uma vez, é ainda pior. Primeiro vai um, depois o outro e, após, o segundo ainda tem que acabar de comer. Provavelmente, três vezes mais tempo do que o necessário ocupando uma mesa, que mesmo compartilhada, é concorrida.
Ainda temos que aprender muito como civilização e sociedade.
(Depois que escrevi isso, fiquei com a impressão de já ter feito um post sobre esse assunto, mas não encontrei.)
Sabe quando você instala um software e ele te dá opções de língua? Alguns trazem “inglês americano”, “inglês britânico” e “inglês internacional”. Esse último é o que Obama utiliza em sua fala calma, tranquila e com palavras simples e bem escolhidas, para o mundo todo entender. Você até já sabe o que ele vai dizer — já viu dezenas de entrevistas. Mas estar diante desse grande homem do século 21 é algo que mexe com os campos magnético e gravitacional em sua volta.
Não importa, nesse momento em que ele aparece em sua frente — e na de outras 15 mil pessoas que estavam ontem no VTexDay em São Paulo —, se seu governo trouxe mais resultados para a economia americana, se seu projeto de saúde pública deu certo ou não. O real valor que esse homem deu — e dá — ao mundo é inspiração. Um negro, de origem simples, com um discurso tão humano e uma fonte de esperança e empoderamento para bilhões de seres do planeta.
Obama é um ícone eterno, um líder mundial (como todo presidente dos Estados Unidos é percebido). Mas para Barack, ser um líder não é ter mais conhecimento, saber decidir sozinho e ter as soluções para tudo. Um líder de verdade se cerca de pessoas que pensam diferente a ele e sabe fazer as perguntas certas para sua equipe de técnicos.
Barack Obama diz que teve sorte na vida. Teve sorte de ter uma mãe que fez de tudo para lhe dar a melhor educação que conseguiu e que o incentivou a não desistir das coisas em que acreditava. Então, sim, ele é um cara que chegou onde chegou também por uma questão de sorte. Quantos conseguem ter esse impulso valoroso?
Quando esteve no Brasil em outra oportunidade, disse que jogou futebol com crianças idênticas ao menino Barack, que queriam e pensavam as mesmas coisas que quaisquer outros. A educação é que faz a diferença. Não incluir, sob os âmbitos social, racial e de gênero, é perder muitos talentos. Não investir em educação (enxergando sob o viés capitalista) é perder mercado futuro, é descartar potenciais ideias inovadoras, é desperdiçar o maior capital que nos diferencia das máquinas: o intelectual.
As três horas de fila valeram a pena. Aliás, não foi pena alguma.