Diálogo Esquizofrênico

— Oi. Tá boa?
— Tudo bem, querida?
— Viu aquele treco do Vilmar?
— Guria… Sabe que eu não…
— Nunca imaginei uma…
— … acreditei naquilo. Porque ele…
— … coisa dessas. Ele era mais…
— … parecia tão, tão…
— … novo que o Oscar. Mas estudaram…
— … feliz. E depois, aquela coisa toda da mulher dele que…
— … juntos quando ele rodou de ano, lá no Colégio São…
— … passou por tudo aquilo. Isso tudo me dá…
— … Francisco de Assis.
— … muita pena. Muita pena dos filhos…
— É. Muita pena mesmo.
— Então tá, tchau.
— Bom falar contigo. Beijo.
— Beijo.

Tem gente que conversa assim. Vai entender…

A Ira de Dona Neide

É difícil um padre jovem durar mais do que três ou quatro anos na mesma comunidade. Não sei por quê. Onde Seu João e Dona Neide vivem não é diferente. Casados há mais de 60 anos (ambos já estão quase nos 90), são extremamente ativos. Moram há 12 no mesmo lugar e já viram três sacerdotes assumirem a igreja que frequentam. O anterior acabou se juntando com uma fiel quarentona, formosa e endinheirada — “Ah, o amor! Esse sentimento lindo capaz de tirar um homem de Deus do seu caminho!” Uma verdadeira decepção para Dona Neide, que confiava cegamente naquele homem. Seu João apenas balbuciou: “É… fazer o quê?” Mas as coisas sempre podem melhorar. Depositam agora toda a fé e confiança no novo substituto e discípulo do Senhor, o Padre Marcos.

Criados com os fortes hábitos religiosos da primeira metade do século XX, quando a missa era em latim e nem sabiam o que entoavam, Seu João e Dona Neide são hoje uma espécie de resistência católica. A juventude não dá mais bola para igreja e, quando faz, costuma pender para o lado evangélico. Quando não podem ir ao culto por algum problema de saúde, o padre vai à casa do casal; atende a domicílio. Digamos, “benção delivery” — é, a igreja tem que se reinventar. Ele dá a comunhão e, claro, aproveita para filar um café da manhã lá pelas 10h, porque ninguém é de ferro. Isso acaba atrasando o almoço, servido costumeira e pontualmente sempre às 11h30. Mas para Seu João, a presença do Padre é mais importante que o horário da refeição e que os remédios que precisam tomar antes de comer. Padre Marcos é o símbolo máximo da devoção que têm a Deus. Não dão tanta bola assim nem para o Papa — “ainda mais agora que parece que é um argentino, vê se pode”.

Todos sabem da dificuldade que um sacerdote enfrenta em uma nova comunidade. Seu João e Dona Neide mais ainda. Além de, geralmente, estar em “início de carreira”, recebe do anterior a paróquia na pindaíba, tanto financeiramente quanto em número de fiéis descrentes. O trabalho é dobrado e o dízimo escasso. Esses cafés da manhã e almoços nas casas das famílias locais acabam sendo divinamente providenciais. Não é só pelo alimento que nutre o corpo nem pela companhia que revigora o espírito, mas é o momento em que o pároco pode chorar suas mazelas aos velhinhos devotos e conquistar um pouco de sua compaixão. Já imaginaram um padre, sozinho em uma nova cidade, sem ter uma máquina de lavar roupas? Dona Neide chega a suspirar de pena — houve épocas da vida em que teve duas simultâneas, para dar conta do serviço! Mas Seu João não deixou por menos e deu ao Padre Marcos a bendita máquina de lavar. Agora, sim, ele pode dedicar-se mais à pregação da Palavra e está sempre limpinho, cheiroso e bem apresentável. Seu João também já presenteou-o com um forno de micro-ondas, não para a paróquia, mas para seu uso pessoal. Alguns boletos vencidos em nome da igreja também foram pagos por Seu João e, por vezes, um filho interceptava ligações de cobrança de dízimos para a casa do casal. A família, desconfiada de tamanha gastança, se pôs a investigar. “Mas é tudo em nome de Deus”, alegou Dona Neide.

Um dia, padre Marcos resolveu marcar uma janta. Na casa do casal, claro. Certamente traria um vinho, de missa, para ser gentil. O casal preparou sua melhor receita, colocou à mesa sua melhor louça — aquela que só padre merece. Dona Neide fez seu sagu supremo, elogiado por toda família. Não foi trabalho simples: ela precisa de andador para se locomover com um pouco de autonomia. Estava marcado para às 18h30. Já eram 19h30 e nada do Padre Marcos aparecer. A filha, de passagem, se deparou com aquela mesa linda, como não havia visto nem no batizado da neta mais nova, e questionou. “É que o Padre vem jantar, mas está um pouco atrasado.” Já eram 20h.

— Vocês não vão ligar pra ele?
— Calma, filha. Se disse que vem, ele vem.

Lá pelas 21h30, o sono batia. Resolveram telefonar. O Padre estava em Brasília, provavelmente com o Bispo. Havia esquecido o compromisso na capital e, coitado, não conseguira avisar os anciãos. Vossa Excelência Reverendíssima merece todo respeito e consideração. Pena que não sobrou um pouco para Seu João e Dona Neide.

Duas semanas depois, repetiu-se a mesma cena com um almoço agendado. Os filhos, já sabendo das histórias, não pouparam críticas ao comportamento ingênuo dos pais. Inclusive, em uma missa delivery, para a qual toda a família estava convidada, nenhum apareceu nem para agradar os dois, tamanha a restrição que estavam nutrindo pelo agente de Deus.

Dona Neide — como se ela é que devesse desculpas a Padre Marcos — ordenou ao marido que a ajudasse a preparar uma quantidade enorme de cueca-virada, de modo a encher um pote plástico, dos grandes. A palavra dela é uma ordem para Seu João, mesmo quando está cansado. Depois de uma tarde inteira preparando o doce regalo, foram à igreja. Após o culto, com um sorriso no rosto, entregaram ao pastor. Ele não se fez de rogado e comeu duas ali mesmo, sujando o hábito de canela em pó e agradecendo de boca cheia.

Mas mal sabia Dona Neide que logo, logo, Padre Marcos viria a ser seu maior desafeto. Não foi a exploração do dízimo exorbitante nem foram os presentes que aceitou em benefício próprio, também não foi o almoço nem o jantar nos quais simplesmente não apareceu. O que de fato fez Dona Neide lançar ao Padre toda sua ira e decepção teve a ver com as cuecas-viradas: ele nunca devolveu o tupperware vazio. E era dos grandes.

Um Segundo Governo para Fazer Concorrência

E se ao invés de elegermos um governo, elegêssemos dois? Seria boa a concorrência, não? Teriam que ser governantes profissionais, de carreira — como se já não fossem agora. Nossos impostos seriam rateados entre eles na proporção do uso que a população fizesse dos seus serviços. Teríamos dois sistemas de saúde paralelos e usaríamos o que nos tratasse melhor. Existiriam aparatos educacionais distintos e matricularíamos nossos filhos no mais eficiente. A infraestrutura comum, como rodovias e ferrovias, teriam seus custos de administração compartilhados. Ou não! Poderiam existir a rodovia do governo A e a do governo B. Pagaríamos o pedágio na que atendesse melhor nossas necessidades. Poderia ter o governo que investisse mais em ferrovias e se tornasse logisticamente mais eficiente. Se houvesse duas polícias e duas justiças, elas seriam remuneradas de acordo com sua performance. Teríamos um custo total mais elevado para manter dois governos? Não acredito que fosse maior do que o atual custo-Brasil, que financia a corrupção incrustada em todas as esferas governamentais. Sem dúvida haveria uma guerra entre os dois, ou uma civil entre os adeptos de cada um. Mas isso já não existe hoje, de uma forma ou de outra?

Manisfesto ao Estranho

weird-eye[1]O estranho não é ruim. O estranho não é bom. O estranho só é diferente, incomum, não ordinário. Se prestarmos atenção, qualquer establishment já foi moda, foi tendência, foi estranho. Depois de estabelecido, pode até sucumbir a outro modismo, que foi tendência, foi estranho, foi ideia maluca. Isso é reinvenção.

O estranho enriquece nossas vidas, cutuca nossa realidade, nossos preconceitos, nossas burrices. O estranho é inusitado, quebra a rotina, realiza sinapses, enriquece social, cultural e espiritualmente.

A geração antiga sempre questiona os hábitos da nova, sem lembrar que a expressão de sua época também fora questionada por ser estranha, e antes ser ideia maluca, ser lampejo. Esses conflitos de gerações acontecem nas artes, nos comportamentos sociais, nas crenças, nas relações interpessoais: “Antigamente é que era bom!”

Só pelo fato de não ser comum, arrisco em me contradizer: o estranho é bom, sim! Pelo menos, até que provem o contrário. Só por trazer mudança, desconforto, questionamentos, o estranho já vale.

Por que as pessoas são tão fechadas ao estranho? E, então, por que alguns investem tanto no estranho se muitos preferem o conforto do convencional, que antes foi moda, foi tendência, foi estranho, foi ideia maluca, foi lampejo, foi observação. Eles são chatos ou loucos? São gênios visionários ou pseudointelectuais? São bobos? Não há nada errado em se emocionar com as mesmas coisas, os mesmos filmes, as mesmas músicas, o mesmo padrão de roteiro que se repete a cada blockbuster, a mesma estrutura musical que permeia as mais ouvidas. O problema é não estar aberto ao novo.

Quando nos depararmos com o estranho, não devemos desdenhar, mas observar, ser amplos, nos permitir. A menos que ele ofereça balas.

O Polêmico Comercial de O Boticário

gregorioO comercial para TV de O Boticário vem causando frisson nos últimos dias (ou seriam “últimas horas”?). Quem já assistiu e sabe da celeuma que se instaurou, pode pular para o próximo parágrafo. O filme publicitário é editado intercalando cenas de homens e mulheres comprando presentes, se arrumando em casa etc., como se aguardassem alguém. A construção do roteiro cria a expectativa de que haverá encontro dos casais no Dia dos Namorados. E realmente há. Mas o plot twist se dá na hora que percebemos que dois dos três casais são homossexuais, um masculino e um feminino. A trilha sonora é o instrumental da canção de Lulu Santos “Toda Forma de Amor”, mas a assinatura da campanha, apesar de graficamente usar cores inspiradas nas do arco-íris, não aborda o tema, dizendo “Entregue-se à tentação de Egeo” — a linha de produtos que está sendo vendida.

A iniciativa é linda! Em um mundo repleto de preconceitos de todos os tipos, é uma benção (se é que os detentores do direito de uso desta palavra me permitem “blasfemá-la”). Só que, claro, diversos ditos defensores da moral, dos bons costumes e da instituição familiar brasileira estão resmungando. E, por causa disso, recebendo tais “denúncias”, o CONAR (órgão de autorregulamentação da propaganda no país) precisa avaliar a situação e julgar se o comercial deve ou não ser retirado do ar. Não acredito que farão uma besteira tão grande.

Devido ao sucesso duplo da campanha (por seu próprio brilho e pelo buzz que o embate está causando nas mídias sociais), algumas pessoas levantam a hipótese de tudo ter sido planejado. Como publicitário, já me passou pela cabeça, várias vezes, criar propositalmente uma crise falsa e estúpida (como esta) contra algum trabalho meu, justamente para promovê-lo ainda mais e fazer o cliente posar de bonzinho. Ele sairia ainda mais fortalecido e com reputação de benfeitor injustiçado. Mas nunca levei a cabo por questões éticas óbvias. Sendo assim, é impossível não pensar na hipótese para o caso atual. O que me dissuade de acreditar nisso, não é genialidade da ideia, pois se até eu a tive, não deve ser tão brilhante assim. O que a torna improvável é o cliente aprovar a conspiração.

Só que as pessoas começam a conversar nas mídias sociais, a pensar (direito ou não) e chegam coletivamente à conclusão de que empresas que têm uma inciativa “corajosa” como essa devem ser valorizadas. Criam uma batalha entre a corrente retrógrada (que nem ousa se pronunciar no Facebook) e a superempresa que vai salvar o mundo do preconceito. E decidem que, mesmo sem gostar dos produtos da marca, consumi-los neste momento é uma forma de incentivo a tamanho ato exemplar de bravura. Artistas também começam a publicar seu apoio, como a foto postada no Instagram do ator Gregório Duvivier.

A campanha será exitosa. O Boticário venderá como nunca!

A partir de agora entra a parte o-que-tu-fumou? da minha abordagem, de onde pode sair, no máximo, um livro de ficção malsucedido. Outras empresas, surfarão na onda e darão representatividade cada vez maior às “minorias”. De repente essas “minorias” começarão a se sentir exploradas em excesso. Irão promover passeatas contra ao capitalismo selvagem que utiliza sua personalidade sem representá-las de fato. E todos sabem o que acontece quando há superexposição de algo, né? Deixa de ser cool e quem vale-se desse apelo sem legitimidade começa a ser mal visto, é repudiado no social media e tudo vira, de novo, o que era antes. Voltam a usar cachorrinhos e crianças na propaganda. Isso, sim, vai vender sempre.

O Discurso

SONY DSC— Ela pediu que você falasse amanhã? O Pato te adorava.
— Ã… Tá… Diz pra Dona Neusa que ela pode contar comigo.

Não sei o que estava sendo pior. A notícia fulminante, mas nem tão surpreendente, da morte do meu amigo Graciel — o Pato — ou o pedido de sua mãe para que eu falasse no funeral. Eu escrevia bem. Talvez ela tenha lembrado de mim porque eu e o Pato fazíamos um fanzine de motocross na adolescência. Eu redigia as matérias e o Pato diagramava. Será que leu o texto sobre o Rally da Colônia? Aquele ficou bom! O problema é que sempre tive certa fobia de me manifestar em público e agora deram-me a incumbência de ser arauto de algum tipo de consolo aos familiares e conhecidos de meu amigo de infância. Só tinha visto discursos fúnebres em filmes. Nunca presenciei.

Todo mundo sabia que o Pato não chegaria aos 40. Mas 24 certamente era cedo demais. Bebida, direção, drogas. Todo fim de semana era assim. Quinta, sexta, sábado. Às vezes até quarta. Eu havia parado de sair com ele justamente por causa disso. Conversas e conselhos não faltaram. Cansei de ser o chato. Todo mundo cansou. Pato era de bom coração, mas não aparentava. Só por isso eu ainda mantinha contato. Só que ele sempre teve essa ânsia autodestrutiva, essa coisa da diversão acima de tudo, sem importar o que custasse. Pato já caíra de moto três vezes, sendo que em uma ficou na cama, todo quebrado, por dois meses. Já fora levado algemado para a delegacia por porte de ecstasy e expulso do colégio por atear fogo nas cortinas da sala de aula. É claro que ele sempre tinha um isqueiro. No final, a gente não nem mais se via muito pessoalmente, nem nos aniversários dos amigos em comum. Ele nunca ia. Nosso último papo foi no Facebook. Me convidou para atravessar os Andes de moto. Nem morto!

Peguei meu caderno especial, para ocasiões especiais, para textos especiais. Pensei no que escrever. Não havia muito para falar sobre sua vontade de viver; não era exemplo para ninguém. Não dava para discorrer sobre como enxergava a vida; não seria inspiracional. Não podia falar da falta que faria; mesmo os mais próximos haviam se afastado. Pato não tinha nenhum talento a ser cultuado. Mal desenhava uma casinha com chaminé. Não sabia assobiar. Até no poker era um desastre. Eu não tinha o que dizer de Graciel Alves de Lima. Nadinha. Amizade que não se explica. O texto mais importante da minha vida, o tempo passando rápido e eu com writer’s block. Que chique!

O dia amanheceu nublado. Parece que em velório é sempre assim. Pelo menos nos que fui. Pouca gente apareceu. Dona Neusa consternada, a irmã blasé, o tio que só deve ter ido porque precisavam de um homem forte para ajudar a segurar o caixão. Não mais que 10 pessoas, incluindo o pessoal do cemitério. Meia hora depois que cheguei decidiram finalizar o velório e proceder ao enterro. Melhor assim. Claro que segurei o caixão, junto com o Xandão, o tio Murci e alguém de uniforme azul por perto. Pato estava bem magro, quatro deram conta tranquilamente. Antes de o colocarmos no cubículo em que passaria a eternidade, Dona Neusa fez questão de lembrar da incumbência que me dera.

— Creio que o Tom, amigo de Graciel desde os três anos de idade, tenha preparado algumas palavras para este momento.

Assenti. Fitei todos rapidamente. Seus semblantes eram uma mistura de vamos-logo-com-isso e incredulidade. “O que alguém teria a dizer sobre aquele jovem?” Coloquei a mão no bolso da calça, tirei a caderneta, cocei a nuca. Abri na página marcada. Com os olhos ainda baixos, fiz o que tinha que ser feito. Em voz baixa mas audível, proferi tudo que era necessário:

— Eu te disse, Graciel.

Inserimos o caixão. O cara de azul lacrou com cimento e fomos almoçar. Já eram quase 12h.

SAC Praia Vermelha

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Hoje fomos à Praia Vermelha, encravada entre Ouvidor e Rosa, ainda no município de Garopaba, SC. O lugar possui 480 metros de areia e é pouco conhecido pelos turistas, devido a seu acesso restrito a trilhas nos morros, tanto do lado de quem vem do Rosa, como do Ouvidor. É uma caminhada de cerca de meia hora, com trajeto bem sinalizado e cuidado, degraus e pontes bem construídos, inclusive com lixeiras, digamos, periódicas. A família Gerdau é dona de toda a área (há quatro casas) e enfrentou embates judiciais a partir da década de 90, pois mantinha fechado o acesso à praia. Reza a lei que praia é um bem público e deve ser garantido o trânsito livre a quem quer que seja. Os pescadores locais entraram com uma ação para garantir seu direito e, de quebra, o meu, de visitar um local tão incrível. Pelo que entendi estudando a respeito, os Johannpeter (pronuncia-se “Gerdau”) foram obrigados judicialmente a não só dar acesso como mantê-lo aberto e estruturado. Um pescador da família responsável pela ação nos disse que quem mantinha as trilhas eram quatro entidades locais, incluindo a tal associação. Não sei.

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Mas nosso amigo Beto, que nos levou lá, prometeu uma praia deserta e um quiosque onde poderíamos fazer nossa farofada e proteger-nos do sol. Chegamos às 10:30 da manhã, com a intenção de passar o dia. A trilha longa e o calor impossibilitavam que fôssemos carregados de cadeiras e guarda-sóis, mas o oásis ao final seria a recompensa. Quando avistamos aquele pedaço de paraíso, percebi que o termo “deserta”, hoje em dia, tem outro significado. Nos quase 500 metros de extensão, apenas umas 30 pessoas se banhavam no mar. Ninguém na faixa de areia, devido ao sol extremo. Avistamos o quiosque muito bem feito pelos moradores — único local com sombra — mas estava ocupado. Provavelmente, pensamos, tratava-se da família que passava temporada em uma das casas do lugar, pois estavam com certa infraestrutura de cadeiras, caixa térmica etc. Arranjamos um local mais adiante, um pouco dentro da mata, onde as árvores proviam certo conforto. Tomamos banho de mar mas, na hora de fazer nosso lanche, percebemos que só restavam duas pessoas no quiosque. Nosso amigo Beto resolveu checar. Foi até lá, com a cara-de-pau que eu gostaria de ter, e perguntou:

— Podemos compartilhar a sombra? Aquelas árvores soltam umas sementes e é desconfortável sentar ali.
— Claro que sim — respondeu o cidadão. Já estamos mesmo de saída.

Enquanto o Beto foi nos chamar, o casal pegou o rumo de casa subindo o morro. Deixaram umas 6 cadeiras — que, claro, não sentamos —, raquete de frescobol, brinquedos de praia e toda a tralha que usaram. Quando nos instalamos, logo apareceu um empregado chamado João Antônio, muito simpático, com walkie-talkie na cintura, que foi recolher os apetrechos deixados.

— Podem ficar à vontade. A praia é pública. Este quiosque foi feito pela família, mas está aqui para todo mundo usar.

Depois que o João saiu, encantados com seu bom-humor, presteza e com o que a família, a justiça e a associação dos pescadores estavam nos propiciando, soltamos a imaginação.

— Poderíamos os escrever para o SAC da Praia Vermelha e sugerir umas melhorias.

Para: Serviço de Atendimento ao Consumidor da Praia Vermelha

Garopaba, 12 de janeiro de 2014

Vimos por meio desta elogiar a hospitalidade e simpatia com que fomos recebidos nesta tão fabulosa praia. Com a intenção de contribuir com a melhoria dos serviços prestados, gostaríamos de fazer algumas sugestões.

Fazem-se necessários bancos. O quiosque possui duas prateleiras muito bem feitas, mas sentar é importante. Pode ser coisa simples, feitos de tábua mesmo; bem praia. Não precisa de muito conforto.

Percebemos que o João Antônio, seu criado, trajava um uniforme escrito “Verão 2013”. Tá desatualizado. Sei que a gente acaba deixando estes detalhes sempre pra depois, mas já faz dois anos. Convém dar um update. De repente até mudar a cor, para parecer mesmo que mudou. Essas coisas demostram capricho. É só um toque. #ficadica

Ele também nos mostrou o burrificador de vinagre que sempre leva com os apetrechos para tratar queimaduras de água-viva. Que louco! Não sabíamos dessa versatilidade do ácido acético. Aprendemos com ele! Só que levou embora. Tenho medo que me pelo de encostar num bicho desses. Seria tão legal deixar um frasco sempre à disposição no quiosque, né? Claro, que precisaria também ter um cartazinho com instruções, porque, assim como nós, muita gente não conhece este macete. Mas isso é bem fácil de providenciar. Só não esqueçam de plastificar, pois a maresia é terrível.

Percebemos também que o 3G não pega. Essas operadoras são de lascar! Prover internet wi-fi seria um diferencial significativo. Avaliem, avaliem…

Já pensaram em puxar um ponto de água de uma das casas? Uma bica de água doce seria providencial.

Sem querer extrapolar, penso que as dimensões do lugar sextavado não permite a distância ideal entre os pilares para a colocação de redes de descanso. Se ele fosse maior ou em forma de pentágono, já dava. Não cogitam reformá-lo?

Sem mais para o momento, agradecemos o tempo que passamos na Praia Vermelha.”

E Se Eu Não Pensasse “E Se”?

E se eu reduzisse a quantidade de leite ao invés de aumentar o Toddy?
E se eu misturasse cacau em pó no Toddy para ficar menos doce?
E se eu usasse só cacau e colocasse açúcar?
E se eu fosse diminuindo o açúcar até o ponto de ficar quase ruim?
E se eu diminuísse mais um pouco o leite, para ficar mais doce?
E se eu bebesse o leite só de dois em dois dias?
E se eu tomasse só no fim de semana?
E se fosse só uma xícara, daquelas bem pequeninhas?

E se tomasse do jeito que eu gosto, na quantidade que eu gosto, e começasse a fazer exercícios pra valer?

E se eu não fizesse mais exercícios e diminuísse de novo a quantidade de leite ao invés de aumentar a de Toddy?

Passagens

canstockphoto0232824Sábado. Vento norte. Porto Alegre, Aeroporto Salgado Filho, Terminal 2, terraço. Michel, 35 anos, observando a pista é abordado por um conhecido.

— E aí, Michel?
— Beleza, cara?
— Beleza.
— Tá vindo direto aqui?
— Não… Só aos sábados. Tô trampando.
— É… Eu também.
— Visse que o horário do Felipe passou para às 10h?
— Vi. Os pilotos estão todos refazendo a agenda. Deve ser por causa das mudanças dos voos, pra Copa. Mudou tudo.
— Deve.

— E o avião novo aquele?
— Legal, meu. Bem joia!
— Tem um ronco mais constante, puxado pro grave, mas com uns ra-ta-tás específicos… Sei lá. Trilouco.
— É. Um som lindo, diferente. Nem parece Boeing.
— Fotografei e mandei lá pro grupo. Colocaram na capa!
— Poxa, que tri!
— Ficou show mesmo. E os caras de São Paulo se puxam nas fotos, então, fiquei felizão!
— Vou ver depois. Ainda não entrei hoje.

— Tá boa a luz hoje, né?
— Céu de brigadeiro.
— É isso aí. Pode crer.

Meia hora depois, Michel senta em um banco, olhando para a pista. Uma senhora já de idade senta junto, na outra ponta, e não contém o entusiasmo.

— Olha, olha, olha…
— Subiu bonito, né?
— Uma pluma… Para um A330…
— É mesmo… A senhora está esperando alguém?
— Não, tô só a passeio. E tu?
— Também.


— Este voo é novo?
— É.
—Sabe que eu gostava mais na época da Varig, da Transbrasil, da Vasp…
— A Vasp era massa, né?
— Todas eram. Época boa que não volta mais.
— Era outro clima… Mas depois de toda a politicagem que fizeram…
— É?
— Pô, cheio de gente graúda envolvida e os caras tentando abafar os escândalos.
— Que coisa séria…
— E os funcionários chupando dedo… Sacanagem…
—Sempre estoura do lado mais fraco.

Ele levanta e, por uns 15 segundos, analisa o monitor de chegadas e partidas. Volta pro lugar.

— Eu agora tô juntando dinheiro…
— É?
— É. Quero ver se eu viajo também.
— Isso é uma coisa boa!
— É, né? Deve ser.
— É bom. É bom, sim.
— Pois é…

Por mais 15 minutos os dois ficaram olhando a pista, até decolar o próximo. O tempo começou a fechar. Michel novamente foi ver o painel de voos e a senhora foi embora. Não se despediram. O vento mudou para noroeste.

A Loja de Uma Coisa Só

Frederico Uribe

Quem nunca teve vontade de mudar radicalmente aquilo que faz como profissão; escolher algo totalmente inverso, que não tenha as complicações e implicações de nossos trabalhos diários? Eu já. Em um desses meus devaneios, penso em abrir algum comércio especializado em um único tipo de produto. Por exemplo, uma loja focada em fósforos, ou em pregos, ou em pentes. Algo assim, bem ridículo, mas que quando alguém precisasse lembraria direto como o melhor local para comprar. O nome seria bem objetivo, como “Casa dos Pregos”, “Só Fósforos”, “Cuca Pentes”. A Casa dos Pregos não teria parafusos, no máximo martelos. A Só Fósforos jamais venderia isqueiros. Seria contra nossos princípios. E a Cuca Pentes até poderia ter escovas, mas nunca tesouras, muito menos xampus ou secadores de cabelo.

E não é que passando de carro pela Andrade Neves, próximo ao Mercado Central, avistei uma “Só Cadarços”? Meus olhos brilharam. De imediato, o primeiro impulso foi pedir emprego. Já imaginei cadarços de todas cores imagináveis, em colunas cromáticas como uma imensa tabela Pantone. Modelos fosforescentes, dourados, prateados, furta-cor, zebrados, onçados, tigrados, listrados, peludos, com LED e pilhas, que amarram sozinhos, elásticos, de nylon, curtos, longos, médios, médio-longos, médio-curtos, para cano alto, cano baixo, sem cano, folhetos explicativos com diversos tipos de nós, uma para cada ocasião. Não parei para conhecer, mas minha cabeça foi longe.

Visualizei meu primeiro dia de trabalho na Só Cadarços, 8:30, todo empilhado, pronto para atender o primeiro cliente:

— Tem cadarço?

É… Talvez eu não esteja ainda preparado para tamanha evolução espiritual.